Ir à praia
Após os dois últimos textos - “O anticomunista primário” e “Os escravos na ONU” -, mais longos e burilados, para não cansar os simpáticos subscritores e visitantes deixo um postal breve, dedicado a um tema que nesta semana suscitou polémica:
O devaneio banhista, o “ir à praia”, foi uma “conquista de Abril”. A democracia da generalização do real direito a férias e a rendimentos, mesmo se parcos, suficientes para andanças lúdicas. E para os “reaccionários” - os venturianos avessos à “bandalheira” - que torçam o nariz a esta constatação: lembro-me de naquela época PREC chegarem as camionetas com o povo das até redondezas, estremenho ou ribatejano, trazido a conhecer o mar - o enclausurado de São Martinho do Porto. Pois havia sido assim a vida, arredada e paroquial, durante o caquético Estado Novo. Isso fez do “ir à praia” um valor fundamental da pátria actual, o de “viver bem” - e muito antes deste país de agora, no qual só alguns “velhos do Restelo” protestam com os “fumos do turismo”.
Nada tenho contra esse Abril. E muito menos contra o mar ou o areal, bem pelo contrário. Mas não vou à praia, em especial na dita “época balnear”. Veto-me essas investidas por razões pessoais, apenas minhas. Pois nesses locais encontra-se gente, por vezes mesmo imensa. A qual, ainda por cima, ali aparenta estar feliz. E muita dela, e em dramático crescendo, é tatuada. Acorrer a esses dantescos micro-infernos? Jamais…
Por vezes vozes amigas insistem comigo, trinam-me os benefícios da “praia” à saúde, a robustez advinda da absorção de minerais e do crescendo de espontâneas vitaminas. Seduzem-me com a opção de, armado com livros, pelo menos ficar a “apanhar os ares” nos “bares da praia”. Mas nesses estão as mesmas moles (até tatuadas, repito-o), demoníacas. Ali encostadas (e sempre felizes!) a músicas altissonantes - pois a raça balnear teme o som do mar, decerto que por memória genética da história trágico-marítima.
Por isso apenas de longe acompanho a polémica popular neste início da Balnear 2026: pode-se acampar com o chapéu-de-sol diante das espreguiçadeiras sombreadas alugadas? É um episódio da luta de classes, o povo industrioso contra o empresariado cúpido. Mas também de mundividências, até filosóficas, a oposição entre o individualismo liberal e o estatismo tentacular, permeável ao capital.
Nada posso opinar. Apenas recordar que em jovem “ia à praia”, lá em São Martinho do Porto. Havia as “barracas”, zonas concessionadas, cada qual gerida pelo “banheiro”. E depois, ao lado, um pouco a caminho dos “faróis” havia a área para os “chapéus-de-sol”. De quando em vez uns colocavam os seus diante das barracas. O mar não se revoltava, o céu não nos caía em cima da cabeça, os burgueses e os neo-burgueses - “Abril” bastante fez mudar aquele “bidé das marquesas” - não chamavam a polícia.
Enfim, a mim - pálido neste aquém-litoral - esta polémica dá-me uma comprovação: o Sol na moleirinha faz mal. Aos gentrificados que alugam a sombra e ao povo que a carrega. Entretanto, abonados seguem os “concessionários”, mariolas bem-postos e melhor articulados. Por isso recordo um postal já antigo, quando vim de férias a Portugal e - por amor - “fui à praia”. Uma nota prévia: presumo que os preços estejam (muito) desactualizados.
Mudar de vida? (27.07.2010)
Vamos à praia, à Costa da Caparica, a praia do povo. Ali chegados avançamos para o areal e procuramos alugar uma sombra. Está esgotada a oferta, temos de acorrer ao concessionário seguinte. Nesse ainda arranjamos local e abrigamo-nos muito juntos, ainda bem que somos um legítimo casal, pois a pouca palha mal amanhada quase nenhuma sombra produz. Pagamos 2 contos e quinhentos (os indígenas assimilados chamam-lhes 12, 5 euros). Descemos até à água, polar, e molhamos os pés. E logo regressamos à quasi-sombra onde nos unimos bem juntos, ainda que com algum pudor, em busca do tal refúgio contra a inclemência soalheira. Lemos algo, algo distraídos. Um pouco depois vamos petiscar ao bar de praia. Abarrotado, e no calor da esplanada tresanda a sardinhas assadas. Voltamos então ao concessionário vizinho, este com nome de flora local (”Palmeiras”). Nele o bar de praia também está cheio, e ali habita o bedum da molhanga do caracol cozido, mas ainda assim temos artes para ocupar uma mesa. Sôfrego bebo duas imperiais, a minha senhora um Sumol, para ela convocamos uma tosta de galinha enquanto eu me fico na tradicional mista. Pagamos mais de dois contos e novecentos (o dialecto regional chama-lhes 14 euros e tal). E, acabrunhados, recuamos para o carro, saímos do enorme e apinhadíssimo parque de estacionamento onde pagamos 700 escudos (os locais chamam-lhe 3,5 euros). Seis contos (trinta euros na “língua de pau” vigente) gastos para ir à praia. À praia do povo. Cheia.
Crise, dizem. Mudar de vida, dizem. Em Portugal.
E aqui deixo a tal “sombra” (a tal a dois contos e quinhentos por unidade). Um verdadeiro testemunho (meu) abonatório, para que não me acusem de mau-feitio.



