Diante da morte alheia
(Cemitério dos Prazeres, Lisboa. Fotografia de Rita Ansone, captada em artigo de Álvaro Filho no “Mensagem de Lisboa”)
Morreu Edgar Morin, nos quase imortais 104 anos. Até pela sua longevidade - e activo até ao final … -, muitos se sensibilizarão, dele falarão. Também por ter sido autor de uma vida recheada - decerto um dos últimos maquisards sobreviventes -, da qual se autobiografou. E nela cruzando um percurso político até típico na sua geração francesa, abandonando a juvenil militância comunista após a II Guerra. Evoluído num “patriotismo cosmopolita”, universalista, compaginável com a complexidade que afirmou no mundo social, assim sobre este exigindo métodos de análise capazes, numa construção burilada numa enorme bibliografia.
E ainda mais se justificará dele falar neste seu final pois autor do célebre ensaio de tanatologia “O Homem e a Morte”. E é deste que eu invoco um excerto, do capítulo “A crise contemporânea e a crise da morte” - pois bem me lembro do meu sorriso ao lê-lo (e sublinhá-lo) naqueles meus 27 anos! Pois escrito em 1951 e tão actual:
“Existe há pouco menos de um século uma nova espécie de intelectuais políticos chamados engagés, absolutamente diferentes dos intelectuais militantes do século das Luzes e de 1848. A palavra engagé tem um sentido muito lato; esses intelectuais metem-se na política como outros entram para a Legião. A Legião é o remédio do desesperado; proporciona-lhe a participação mais rigorosa, como um colete de aço que incomoda, mas permite que se esteja de pé, caminho e viva. E, além disso, a ultrapassagem, o esquecimento, a aventura... Do mesmo modo, para o intelectual à volta de quem definharam ou se romperam os vínculos de participação, que teme o isolamento mortal, a política é qualquer coisa que soa como o tarará espartano, o clarim da Legião. Gostaria de ser um grande tatuado ideológico que aprecia o cheiro de água quente. (…)
Claro que a participação política pode ser revitalizante e barrar a nevrose da morte. Mas, em geral, quanto maior é a nevrose mais procura a religião comunitária, ou então o calor primitivo de onde se elevam os cantos roucos. Extraordinária dialéctica em que a individualidade requintada, desiludida, só aspira à gregarização. O esteta frágil quer voltar ao bruto e tornar a ser bruto. (…)
Os engagés aplicam a si mesmos os conselhos de Pascal: ide à missa, “embrutecei-vos”. Mas às vezes riem escarninhos, à socapa, no momento da elevação da hóstia. Oscilam entre o fanatismo e o eclectismo, o desespero e a exaltação. Embora mais ou menos camuflado, o seu drama permanece intacto: crêem sem querer, a menos que o seu embrutecimento leve a melhor.” (pp. 271-272).
Mas esta referência não a trago como aqui deixando uma homenagem ao autor - muito menos como tentativa de obituário, para o qual não tenho capacidades (nem suficientes leituras havidas). É apenas uma evocação - e também invocação, como o excerto o mostra.
E que me serve também para deixar algo que me azucrina: a altivez de alguns, essa que vou encontrando aquando das mortes das gentes célebres. É a habitual reacção dos “afectados”, em particular deixada nas “redes sociais”. São os “doutos”, os doutores - professores, escribas avençados, comentadores (oradores avençados), “quadros” - que logo invectivam todos os de nós que surgimos a louvar um qualquer recém-morto, nisso a fazê-lo nosso. Acusam-nos de nos encenarmos através da apropriação desses (ainda frescos) cadáveres, de através deles nos construirmos como gente válida na praça pública. Ou seja, entendem-nos como querendo alcandorar-nos até estratos mais elevados da pirâmide, para eles assim sacra, desta sociedade. Onde eles, como é óbvio, habitarão.
Assim mostram julgarem que vivemos nós ainda numa sociedade de “ordens”, de “Antigo (que não “anterior”) Regime”. Pois somos vistos como ilegítimos se reclamando como nosso o património dos ilustres, esse que os tais “doutos” querem seu monopólio. No fundo, a nós plebe dizem-nos uns arrivistas atrevidos, por quereremos mostrar a “dor” - o sentimento feito de (algum) conhecimento - que só a eles pertencerá. Em suma, falamos (hoje) de Morin? Mas quem somos nós para tal cometimento?
Isto não se apropria a todos os lamentos públicos. Quando há meses morreu o grande Fernando Mamede aqui evoquei a memória que dele guardo, tal como muitos outros o fizeram. A ninguém vi refutar a legitimidade desses lamentos publicados no rossio digital - nem mesmo a mim, apesar de nem footing praticar, menos ainda jogging, e apesar disso elogiar o grande corredor. Depois morreu o actor popular Chuck Norris, do qual lembrei uma deliciosa história sobre ele na Tanzania. Também não vi reclamações sobre os elogios à pitoresca personagem. Ou seja, para louvar celebridades de actividades populares não são exigíveis dotes intelectuais peculiares.
Mas, e para falar apenas de exemplos recentes, quando morreu Robert Duvall - sobre o qual também deixei a minha memória - já li resmungos desses. Pois este era um “actor sério”, material reclamado para abordagens e evocações “avalizadas”. Pior ainda quando morreu António Lobo Antunes - também deixei a minha experiência de leitor. Pois foram bastantes os “especialistas” que nos vieram apodar de atrevidos por falarmos de um escritor daquela monta sem sermos especializados para tal. E o mesmo aconteceu com Chainho ou Habermas - mas não com Mário Zambujal, decerto por este ser considerado escritor “ligeiro”, sobre o qual poderemos falar sem ter “carta de corso”. Pois o que a nós gostariam de vedar é elaborar sobre gente ilustre, a da “alta cultura”. Que ficássemos restritos à “cultura de massas”, a nossa.
É uma verdade que o lamento público, comungado, é um fenómeno “de arrasto”, um carpir comum. E tem uma componente de encenação. Nele construímos a nossa personalidade privada (o eu - o que os tontos do jargão chamam “self”) e colectiva, de participação na interlocução com os que queremos nossos. Desse modo, estas “orações” fúnebres, estas “condolências” mútuas, tratam-se da constituição de uma (aparente) “comunidade”, de pertença.
Pois evocar em comum um recém-morto é forma de afirmação própria, de pertença a grupos congregados em torno dessa memória. E até de nos alindarmos. Mas qual o problema disso? Os “afectados”, os “nobres” culturais não gostam, julgam que os insignes vultos apenas lhes pertencem, especialistas que se afixam no mercado nobiliárquico? Mas nós-povo não podemos com os nossos limites fruir, até a dor, suave que seja? Não nos podemos apropriar do simbólico e (re)fazermo-nos?
Somos ignorantes? Somos. No 11º ano estava na sala de convívio dos Viveiros (actual Escola Eça de Queirós) e alguém me avisou que o Bob Marley tinha morrido. A seguir à aula corri, em urgência, para casa do Mário, um grande amigo guineense que tinha uma enorme colecção de LP’s. Nela aprendi imenso (Marvin Gaye, os Chic, o Michael Jackson do “Off the Wall” entre tantas outras coisas), e também as primeiras danças ritmadas, que tanto iam para além das “rockadas”. E para ele acorri para partilhar a dor da morte do Marley, para a este ouvir e sobre ele falar. Eu já tinha o duplo “Babylon by Bus” e o “Live”, os outros vieram depois. Então cantava-se / dançava-se o reggae, na rua (pois já havia walkmans), nas casas onde os pais não estivessem, nas discotecas e nas festas de garagem. Adolescentes brancos, portugueses, eu de ténis Sanjo brancos e calça de ganga (“new wave”), entoando o “Trenchtown Rock” ou o “Exodus” movement of jah people… Desconhecíamos a densidade das dimensões contestatárias das canções, do movimento rastafari, e ainda menos sabíamos das críticas de então aos jovens brancos que fruíam o reggae amputando-o da dimensão política. Mas usávamo-lo para nos construir, e nisso sermos mas também entreabrindo-nos. Isentos das censuras dos especialistas, dos “doutos” - que na época não abundavam.
Em 1986 morreu Borges. Eu iniciara-me nele aos 14 anos - a minha irmã emprestara-me o “Aleph”, transtornou-me…, dali em frente fui lendo Borges sempre que podia. Quando ele morreu sentei-me, já não em casa ou na minha rua com a rapaziada, mas no café do Sô António e da Dona Irene, a acolhedora taberna na qual o simpático casal nos cuidou durante o nosso despontar. E falei com vários amigos - alguns dos quais ali surgiam com o “Libération”, ou o “Rock & Folk” ou a “Métal Hurlant”/”À Suivre” - sobre o que tínhamos perdido. Era eu um expert em Borges? Claro que não… E eles? Também não. Mas vivia-o, construía-me nele. Afixava-me como um Zezé que lê o Borges.
Em 1991 morreram o Zappa e o Miles Davis (que ainda por cima eu tinha visto há tão pouco em Lisboa). Já não foi em casa, nem na minha rua, nem na tasca dos Olivais, que me deixei perorar entre-outros sobre os vultos. Terá sido no Bartis, no Bairro Alto, ou nessas cercanias. Era eu um especialista, um mero melómano que fosse? Nada disso - se eu então conhecesse o Zé Navarro de Andrade ele bem me teria dado calduços devido ao que terei eu dito sobre o Miles e o jazz… Mas, mais uma vez, fiz-me, fizemo-nos com os mortos.
Em 2009 morreu Lévi-Strauss, já centenário. Eu vivia em Maputo. Já era o tempo da internet. Mal soube da morte deixei um breve postal no “éter blogal”: “acabou o século XX” - e, de facto, estava certo. Enfim, hoje poder-se-á dizer que XX acabou com a morte de Morin, ambas as hipérboles são aceitáveis… Na alvorada seguinte, enfrentei alguns jovens moçambicanos - não num café ou num bar, mas numa sala de aula. E perorei durante hora e meia, abandonando o tema previsto e simulando a comoção que deveras sentia - tenho meia prateleira carregada de livros de Lévi-Strauss (e outra meia dos de Dumézil), pois a minha mãe entrava comigo na Bucholz e aos meus “não é preciso, mãe, são caros, eu fotocopiarei” e ela respondia “os livros são para comprar”, e num breve agora a minha filha Carolina terá de os entregar para pasta de papel. E nessa arenga, quarentão rumo aos cinquenta, fiz-me, continuei a fazer-me, mostrei-me naquele rossio, no bazar dir-se-á lá. Era eu um especialista, um “connaisseur” de Lévi-Strauss? Não. Um pouco conhecedor, talvez, mas não um especialista.
Enfim, arengo irritado com os doutores “doutos”. Qual o problema de falarmos, evocarmos, invocarmos, até nos encenarmos, e de nisso sentirmos a morte dos ilustres ou apenas conhecidos que morrem? De nos comungarmos assim?
E deixo um texto mais antigo que escrevera no mesmo sentido:
O blaseísmo é a pior infecção nacional (16.3.2018)
O blaseísmo é a pior infecção nacional. E não há antibiótico que lhe chegue.
Filho de engenheiro fui ofertado de livros infanto-juvenis de sensibilização para as “ciências naturais” e para as tecnologias. E em casa sempre houve livros de divulgação científica e de história das ciências, edições francesas os mais antigos, traduções nacionais depois (em particular após a explosão da Gradiva). Entre alguns outros li, em pós-puto, cada um à sua maneira, Reeves, Sagan, Jastrow. Estuporado por um sistema de ensino medíocre (e corporativo, já agora) fui arrancado à matemática e adjacentes com 14 anos (e os especialistas passeiam-se por aí, sem serem lapidados na rua). Quando chegou a “Breve História do Tempo” de Hawking li-o e, como tantos dos (bocados dos) outros livros do “género”, não o entendi. Muito por impaciência, desinteligente. Mas também por me faltarem os instrumentos intelectuais para - real e “naturalmente” - apreender, “ver”, o que estava a ler. Ficou-me a imagem do autor (que homem!) e a memória do impacto do livro. E a ideia - já a tinha, e continuei a comprová-la depois - de haver matérias que têm de me ser explicadas, pois não “chego lá” sozinho nem apenas pela leitura. E segui, vulgaríssimo de Lineu, respeitando (idólatra ateu) aqueles que algo mais têm.
Hawking morreu agora. Leio que se dedicava a alguns tópicos surpreendentes: à análise de como levar a selecção inglesa de futebol ao título mundial (uma impossibilidade cosmológica) e de como marcar penaltis com sucesso (uma costela de alquimista a la Newton?). E, ainda mais surpreendente para mim, que reflectia ele sobre o pré-Big Bang: pois eu julgava que a reflexão actual se detinha no intervalo 1 elevado a -37 ao 1 elevado a -42 de segundo após o estouro-mor (se calhar estou errado nos números, mas ideia geral que recordo é esta), que o antes disso se remetia para uma metafísica.
Ou seja, não só não percebi o (já antigo) livro como não sei onde está a reflexão da cosmologia. Tenho assim, cinquentão, uma ignara noção sobre a ciência actual e a imagem do universo que constitui. Isso não me impediu de sentir a morte do enorme cientista e do tão peculiar homem: um símbolo!
Ao que leio, em tanta gente, “parece mal” referir o assunto, porque lamentar/assinalar a morte de Hawking é como se reclamar a compreensão do seu trabalho e implicações. Exprimir um “luto” neste caso é um “armar aos cucos”, como antes se dizia. É engraçado, pois quando morre uma actriz, daquelas celebrizadas pelo voluptuoso com que se apresentavam em jovens, muitos (e até muitas) daqueles que vão incapazes de colaborar num orgasmo feminino surgem a lamentar o facto. Se vai um actor “sério” gente incapaz de falar em público condói-se. Se morre um grande guitarrista rock ou uma qualquer Lady Gaga, nós-gente incapaz de ler uma pauta ou de soltar um trinado, assinala a perda. Etc. E em nenhum destes casos há a acusação de nos estarmos “a armar”. Podemos respeitar, idolatrar até, sem que nos seja exigido perceber o conteúdo e as implicações do trabalho alheio, o “como”, “para quê” e, acima de tudo, “até onde” desses trabalhos alheios.
Mas quando morre alguém da “ciência” ou da “alta cultura”, da coisa “profunda” e até mais “digna”, saem à rua os blaseístas a gozarem com a admiração que nós-vulgares temos. Não tanto porque eles “percebam”. Mas porque assim querem alardear que têm o estatuto firmado, reconhecido: “não se armam aos cucos” pois disso não precisam. Entenda-se bem, o “armado aos cucos” é o blasé. A ignorância, estatutariamente interesseira e, afinal, nada entediada, é esse blaseísmo. Tão, mas tão, lisboeta. E não há antibiótico que lhe chegue. Como titulava o escritor, “não se pode exterminá-los”.


