Mamede, um Maior
O desporto serve de propaganda dos países - por isso todas as manipulações estatais desse património, desde a simples associação dos políticos aos ídolos até aos apoios cirúrgicos a actividades que possam fazer resplandecer os Estados e seus próceres. Mas ao mesmo tempo - numa confluência avessa a leituras lineares, encomiásticas ou denunciatórias -, o desporto é o espelho das sociedades, assim não só matéria através da qual se descortinam características fundamentais mas também dinâmicas transformativas emergentes ou existentes.
Em Portugal tal complexidade foi patente durante as guerras coloniais, com as espantosas epopeias do Benfica europeu - e, em menor escala, do Sporting - e, ainda mais, dos “Magriços”. Equipas que eram amálgamas de filhos de operários e agricultores miserabilizados, pejadas, estreladas e até capitaneadas por mulatos “filhos do Império” (estes assim elevados a “brancos”, como lembrou o Monstro Sagrado Mário Coluna na sua biografia). As quais se poderiam dizer símbolos do então propagandeado “luso-tropicalismo”, quase como se o seu seleccionador fosse, afinal, o brasileiro Gilberto Freyre.
Depois, naquele ocaso de regime, e já na minha atenta meninice - durante a qual entreguei ao Sporting o monopólio dos meus ídolos (Damas, Livramento, Lopes, Jordão, Theriaga, Aldegalega, até os estrangeiros Yazalde e Keita, etc.) -, foi o advento de Joaquim Agostinho, ídolo do povo, na sua força heróica até algo simplória impondo-se lá nas “franças”, para onde haviam partido tantos dos seus, esses labutando nos sopés das sociedades ricas. Na enorme rudeza daquele rumo ciclista, Agostinho representava-os, até alijando-os daquilo a que os seus netos haveriam de chamar “discriminação” - e também por isso que avassaladora foi a comoção popular aquando da sua tão injusta morte, tanto ainda lembro o vítreo silêncio da nossa multidão em torno do velho José de Alvalade, diante do seu féretro!
Entretanto, vigorando uma sociedade atrapalhada, pobre e anacrónica, sob um Estado quase pária, o desporto-rei entricheirara-se no “ferrolho” quando “lá fora”, no culto do singelo “brilharete” - como sempre titulava o então bíblia “A Bola”, num de facto envergonhado miserabilismo - que iluminasse o negrume em que isto ia. Quanto à “glória nacional” ela vinha dos triunfos no hóquei em patins, esse esconso desporto restrito a um país, o nosso, a uma província espanhola, a uma cidade italiana e a uma avenida argentina, como alguém, décadas depois, tão bem o veio a definir...
Após a revolução de Abril foi-se instaurando o desporto democrático, na paulatina profissionalização tecnocrática, num ambiente menos paternalista e sob uma organização cada vez mais autónoma. Ainda rústico e pobre, por isso nada atreito a modalidades colectivas ou à complexidade das então disparatadamente chamadas “disciplinas técnicas” - como se outras não o fossem -, afirmaram-se os corredores de fundo, heróis solitários quais novos Agostinhos, feitos da força inata e do esforço incessante. O Grande Carlos Lopes, também Fernando Mamede, e - já algo depois - Rosa Mota, essa que revolucionou o lugar das mulheres neste mundo luso, até porque prosseguida por outras campeãs (Aurora Cunha, Fernanda Ribeiro). Todos estes mostrando que o sucesso “lá fora” era possível, apesar do nosso tudo...
Foi nesse país trôpego que Carlos Lopes mostrou que se podia vencer na “estranja”, veio ele fazer sonhar ganhar. Que efeito a sua saga teve sobre uma população ainda de “chapéu na mão”: o querer de um homem humilde; o duro, longo, e or-ga-ni-za-do trabalho; a esperança e o sofrimento. Sob a direcção de um Mestre-pai sabedor, rigído mas amigo - Mário Moniz Pereira, que para sempre ficou um ícone da competência humanista. E, finalmente, até já inesperada, a recompensa da sua veterana vitória total, do sucesso, da liberdade, a conquista da Maratona Olímpica.
Antes, em 1977, ele capitaneara o Sporting na inédita vitória europeia no corta-mato - quando o grande rival, o espanhol Mariano Haro, por ele esperou ao vê-lo escorregar e cair no lamaçal da pista, desportista assim firmando-se eterno campeão, tão para além de uma mera vitória em corrida. Eufórico com o triunfo, no dia seguinte de manhã baldei-me às aulas aqui nos Olivais, juntei-me a colegas da turma dos Viveiros, e fui esperar os campeões ao aeroporto - foi a única vez que pedi autógrafos: ao Lopes, ao Mamede, ao Aniceto Simões, ao Carlos Cabral.
E ainda lembro, tão bem, como antes, nos Olímpicos de 1976, seguira num apinhado “Careca” da “rua dos cafés” de São Martinho do Porto, aquela final olímpica, em que Lopes foi batido na recta final pelo afinal sprinter Lasse Viren, o malvado finlandês, esse que fazia transfusões de sangue, assim ilegitimamente roubando-nos (sim, a todos nós!) a subida ao pódio máximo - e nem vimos em directo a cerimónia da “medalha de prata” de Lopes, diferida para que fosse transmitido um anúncio do Atum Tenório, esse que ainda hoje, 50 anos depois, nunca compro e por isso mesmo…
Mas de todos esses o meu preferido ficou Fernando Mamede. Não apenas por ter ele como píncaro da sua carreira o recorde mundial dos 10 000 metros (nuns incríveis 27.13. 81), algo que obteve em Estocolmo em 2 de julho de 1984: o dia em que fiz 20 anos! Que euforia, a de todos nós e a minha, reforçada em dia de tão especial aniversário!
Pois o que eu amei em Fernando Mamede foi aquela sua grandeza do insucesso. Heróica, qual mito grego - não a húbris de Aquiles, recusando-se a combater os troianos devido a mero assunto de saias, essa que Agostinho replicara parando de pedalar no Tour apenas por o treinador lhe recusar uma coca-cola durante a etapa… Mas sim a enorme fraqueza de ser humano (“demasiado humano”, terá dito algum escritor), de ser incapaz do sucesso máximo quando este se lhe apresentava. Tornando-se assim Mamede até odiado por adiar … as aspirações ao sonho dos compatriotas, pois tão igual ao comum era ele, tão pouco enorme parecia no momento decisivo. Pois, sem rebuço, a grandeza do falhanço nada colhe junto de quem sonha subir, a isso anseia, disso realmente necessita. Foi mesmo esse seu tropeçar junto ao cume que o tornou o meu preferido de todos. Respeitando, até amando, os Eusébios, os Figos, os Lopes, os Ronaldos, as Motas e Cunhas. Mas sempre adorando Mamede, esse sim um dos nossos. O maior dos nossos.
Lembro ainda a comoção que tive no dia seguinte à final olímpica dos 10 000 metros de 1984. Mamede super-favorito falhara mais uma vez, afundara-se. Naquela noite a loja de artigos desportivos que tinha na Avenida de Roma foi vandalizada por pretensos “adeptos”, irados por não ter sido ele campeão. Ainda hoje digo que face a essa notícia foi a única vez que senti vergonha de ser português - mas, de facto, terá sido apenas o momento em que percebi a “identidade” portuguesa, isso que tanta verborreia tem causado aos intelectuais, nesta gasta pátria tão prolixos são em meros mansos “ensaios” sobre tal espúria matéria.
Ao longo das décadas subsequentes Mamede foi sendo esquecido. Jamais idolatrado. Alguns, raros, textos aludiam a continuar ele - homem tão especial, tão precioso - algo acabrunhado. Devido às minudências que não conseguiu, talvez insensível ao gigante que foi. Um Maior. Pois o maior de todos nós. Amámo-lo pouco. Muito menos do que o devido.
ADENDA: um leitor avisa-me da existência de uma nota biográfica de Fernando Mamede - “Fernando Mamede: muito mais do que um desistente”, de António Araújo (Diário de Notícias, 26 de Novembro de 2023).
(Postal na categoria “in memoriam”)

