Um "improviso escrito" e uma entrevista, sobre o meu "Sentido Obrigatório"
Fui entrevistado por Amadú Dafé para o programa Mar de Letras, emitido pela RTP-África, que fica visível através da RTP Play. Deixo-a aqui, para quem tenha interesse nessa conversa de meia-hora.
O mote fora a publicação do meu livro Torna-Viagem, um conjunto de uma centena de crónicas que, na sua maioria, ecoam as minhas vivências em Moçambique. E também abordei o meu recente Sentido Obrigatório, no qual congreguei trinta reflexões sobre aquele país e, também, sobre como se olha de Portugal para Moçambique. Quem os queira obter poderá encomendá-los na minha Loja de Autor na plataforma editorial bookmundo.
Para a recente sessão de apresentação do Sentido Obrigatório eu fizera um “improviso escrito”, no qual tentava legitimar o meu livro. Aqui o publico. E deixo também, mais abaixo, o texto que escrevi para a apresentação do Torna-Viagem, no Abril de 24.
“Improviso escrito” para a apresentação do Sentido Obrigatório, sessão na sede do Camões, 18 de Setembro de 2025.
1. Agradeço ao Camões - e à sua presidente, Florbela Paraíba - o acolhimento a esta sessão, a qual espero não deslustre o eixo da celebração nesta instituição do cinquentenário do país aliado Moçambique.
Agradeço também aos nossos patrocinadores, que nos possibilitam tornar esta sessão-inauguração num verdadeiro convívio festivo: a Casa Santos Lima e a World Masala.
Estou grato à Graça Gonçalves Pereira - essa que tantos de nós sempre identificamos como a “nossa cônsul”, dada a forma extraordinária como exerceu o posto em Maputo - o estar aqui para apresentar a Senda Índica do Pedro Sá da Bandeira e também para me dar alento.
Saúdo a Conceição Siopa, leitora do Camões em Maputo, que me autorizou a usar para a capa do livro a “Matola-Rio 2000”, fotografia do meu saudoso amigo Luís Abélard que me é tão significante. E abraço os meus amigos desde há meio século, o Barão (Francisco Pacheco) que fez a capa do Sentido Obrigatório, e o Joni (João Paulo Marques) que tanto me apoiou nesta sessão.
E sublinho a minha gratidão para com o Pedro Sá da Bandeira por me ter associado à inauguração da sua exposição Senda Índica - e alongo-me nisso (o texto em que tento recriar esse meu verdadeiro improviso está aqui).
2. Para hoje tenho aqui um “improviso escrito” - como sempre dizia o meu amigo Aventino Teixeira, que nisso exercia o seu constante sarcasmo. Pois apresentarei eu o meu livro. Sei que isto é visto como empobrecedor, desabrigando livro e seu autor de veementes encómios alheios. E, pior, avisou-me uma catedrática amiga de que na “nossa cultura” isto é considerado um exercício de demasiada auto-estima. Ainda assim assumo o risco, pois sei-me mais atreito à autofagia…
Neste Sentido Obrigatório junto 30 textos, uns sobre Moçambique e outros sobre as percepções daquele país que vigoram em Portugal. Apenas o último tem retórica académica - ensaio um “ensaio” sobre o percurso político moçambicano. Alguns são artigos de imprensa e a maioria são postais de blogs, algo que escrevo desde 2003. Ou seja, este é um livro de um português que é antropólogo bloguista (que não vice-versa).
3. A autopublicação (a velha “edição de autor”) - neste caso através da plataforma bookmundo - é socialmente desvalorizada, carece de “estatuto”. Ora realço que deste modo os autores não fazem pagamentos prévios às (putativas) “editoras”, como infelizmente é tão habitual. E não têm as sequelas morais face às consabidos incumprimentos das promessas editoriais de distribuição alargada, divulgação celebrizadora e até de remuneração. Pois neste regime grava-se o livro e disponibiliza-se aos interessados. A plataforma funciona, os livros são impressos como requerido, entregues com celeridade e competência. E não há as sobras nem o recurso à malvada “guilhotina” para exterminar os “monos”.
E, por último mas não menos importante, as vendas vão sendo minuciosamente contabilizadas - para exemplo, sei que faltam 8 vendas do meu Torna-Viagem para atingir a pretendida, pois semi-demoníaca, quantia de 333 exemplares comprados. E os respectivos vis direitos de autor são pagos com a ciclicidade acordada. Um descanso!
É certo que esta modalidade limita a visibilidade dos livros, que assim não estão disponíveis “à vista desarmada” - livrarias, feiras, mesmo imprensa… Mas são feitos e podem ser divulgados na … comunidade, através das recomendações entre todos nós. Ou seja, por interacções rizomáticas, algo tão agradável para um bloguista. Se se quiser encarar de outra forma: este é um modo de estar (e publicar) liberal!
4. No Sentido Obrigatório deixo testemunho dos meus 18 anos de vivência em Moçambique mas também da atenção que sobre o país mantive nos anos subsequentes.
Pois Moçambique primeiro entranha-se, depois estranha-se…, ao invés do que o poeta publicitou. Ao meu inicial encanto curioso, frenético no tentar conhecê-lo e compreendê-lo, alimento da minha esperança como desenvolvimentista gradualista, “melhorista”, sucedeu-se o desencanto, diante das até incompreensíveis - de inaceitáveis - dinâmicas que vêm esmagando o que parecia possível. Um país que se atasca, em demasiadas “limitações” próprias e noutras impostas. Com custos humanos e ecológicos gigantescos.
E é esse, esclareço, o sentido só aparentemente paradoxal da capa, do excêntrico “sentido proibido” captado pelo meu querido Luís Abélard conjugado com o “sentido obrigatório” que tantos querem apor a Moçambique.
Por outro lado, muito por lá ter trabalhado para o nosso Estado mas acima de tudo por seguir português patriota, também no livro explicito a minha frustração com a nossa inconstância estatal e social face às realidades moçambicanas, a constante prevalência das superficialidades assentes em lugares-comuns e sobranceria. Uma mundividência anacrónica e preguiçosa que não é apenas uma “nuvem” flanante. Pois vive nas concepções e práticas entranhadas de modo altivo nos indivíduos, oficiais deslocados ou passantes.
5. Escolhi apenas trinta textos, para assegurar que o livro seja manuseável. Dividi-o em seis secções: a primeira é “A Minha Lupa”, onde junto textos até autobiográficos pois apresentam como vivi e entendi o país; na “O Óculo Nacional”, deixo meia dúzia de textos do tal português patriota irado diante da incompetente tibieza do nosso Estado e da languidez, mas tão convicta, da nossa imprensa; na “Qual Cônsul-Honorário” abordo as dificuldades dos imigrantes portugueses no país, que tanto contrastam com as habituais superficialidades sobre o assunto e realço um caso notável e raro de competência no âmbito da Ajuda Pública ao Desenvolvimento, ambicionando-o como farol para futuros processos de associação.
Na secção “Capinar” abordo episódios denotativos de improdutivas forças ideológicas dominantes em Moçambique, e que ali surgem como se “naturais”, dada uma presumida justeza (que não “inocência”) dos seus propagandistas, explícitos ou implícitos. Na “A Revolução de Capim?” agreguei textos que dediquei à situação política moçambicana, recentemente tão convulsionada. Isto apesar de essa ser uma matéria sobre a qual muito evitei escrever durante anos, atendendo à minha condição de meteco quando lá residente, e também ao distanciamento posterior. Finalmente na “Entre Estantes” deixo um texto longo, de retórica quase académica, uma espécie de memórias bio-bibliográficas, no qual procuro sistematizar a minha visão da história política moçambicana.
Presumo, estou mesmo disso convicto, que este será entendido como um livro antipático. Se assim acontecer apenas poderei dizer que faz jus ao seu autor… Amigo do meu amigo. Mas muito impaciente diante daqueles que seguem satisfeitos com os respectivos requebros.
Sobre o meu Torna-Viagem
(Texto para a apresentação do Torna-Viagem, sessão no Restaurante Moçambicano Roda Viva, 6 de Abril de 2024)
1. O curial nestas ocasiões é começar pelos agradecimentos. E depois manter um tom plácido – até reconhecido face aos que tiveram a generosidade de comparecer, numa espécie de “neutralidade” oratória, de facto autocomplacente. Cumprirei a primeira parte, não a segunda.
Agradeço ao Octávio Chamba, do Roda Viva. Que está a ser imensamente generoso…Entenda-se, mecenas. Meu mecenas. Gosto muito do Roda Viva, gosto da comida, claro. Mas gosto do Roda Viva para além da comida. Pois é-me um poiso! E poder ter um poiso moçambicano em Lisboa é-me precioso.
Agradeço ao Fernando Florêncio a sua disponibilidade para colaborar nesta apresentação. O Fernando é meu camarada, juntos na licenciatura, no mestrado, percursos laborais algo semelhantes em missões internacionais e também nos trabalhos de terreno em Moçambique – através dos quais se doutorou. De convívios intensos por lá. E de rescaldos quando por cá. Mas o meu apreço tem também outra fonte. Pois o Fernando é um académico sem ademanes… E isso é raríssimo. Por isso lhe telefonei implorando “ouve lá, preciso de alguém que venha dizer bem de mim, e não encontro mais ninguém para isso”. Ele logo anuiu a socorrer-me.
Agradeço ao Pedro Gonçalves, meu camarada de Hospital Militar (pois ali fomos ambos dispensados no mesmo no dia 24 de Abril de 1990), o designer que me arranjou o livro. Agradeço também ao Pinino (que também é conhecido por Miguel Vale de Figueiredo) – meu amigo de uma vida - pela fotografia da capa, a qual eu muito elogiara quando ele em 2011 foi à Ilha (de Moçambique), tanto que me veio a oferecer uma bela impressão. Eu poderia discorrer sobre esta fotografia – a qual ele, com a verve viperina que o caracteriza, diz “uterina”. Mas para mim, e para além de outros sentidos, tem um valor extra: um fotógrafo português que vai à Ilha e que traz este registo feito… nos aquartelamentos construídos na década de 1960. Que melhor maneira de pontapear a constante exotização - carregada de versalhadas, folclorices e devaneios pós-quinhentistas – que os portugueses fazem da Ilha? Esta fotografia é (ou pode ser) um verdadeiro manifesto sobre o olhar pertinente.
E agradeço, penhorado, a tantos outros. Quando após duas décadas me fiz “torna-viagem” aqui aportei verdadeiro náufrago, qual episódio contemporâneo da História Trágico-Marítima, sôfrego em apanhar qualquer palha à tona de água que me evitasse o afogamento. Tive a sorte de reencontrar um vasto leque de amigos, neles congreguei fortes pranchas com as quais fiz esta balsa – qual Thor Heyerdhal – na qual vou navegando. Não os vou nomear, uns estão aqui, outros não, mas têm estado sempre comigo.
2. “Torna-Viagem” é um tópico na literatura portuguesa. Em 2019 a investigadora Martina Matozzi publicou o seu De Torna-Viagem. A Emigração na Literatura Portuguesa, uma reflexão sobre as representações literárias da emigração portuguesa desde meados de XIX. Há dias o meu professor Jorge Freitas-Branco referia-me que o escritor madeirense Horácio Bento Gouveia publicou em 1979 o romance “Torna-Viagem” – o qual eu desconhecia. E em casa tenho do meu avô paterno o Cartas de Torna-Viagem de Eugénio de Castro (1869-1944), de 1925, uma colecção de artigos de índole cultural que havia publicado no jornal La Nacion de Buenos Aires.
E é normal que assim seja, num país de emigração e de tanto retorno. Independentemente de como são literariamente representados os tais “torna-viagem”, se respeitados como no grande Aquilino ou no fulgurante Ferreira de Castro, para meros exemplos - mas nunca como Fradiques, excepto no de Eça. Ou se popularmente desvalorizados, agora como “avecs”, antes como “brasileiros”, “emigras” ou, pior ainda, “retornados”, ainda que sempre louvados se, e enquanto, não-regressados, como na versão actual de “comunidades” … Pois é constante, histórico até, o desapareço e até aversão para com os que foram até lá fora, regressando estrangeirados, endinheirados ou desabonados, pouco importa…
É a Eugénio de Castro que retiro a definição, com a qual enceta o seu volume: “De tornaviagem se chamava antigamente aos vinhos generosos que, de Portugal exportados para o Brasil e não tenho lá encontrado colocação remuneradora, voltavam à pátria, onde as bocas e as narinas experimentadas neles surpreendiam considerável aumento das suas melhores e mais características virtudes, sabor e perfume.” (Eugénio de Castro, Cartas de Torna-Viagem, LUMEN, Empresa Internacional Editora, 1925, p.7). E uso-a porque se prende com o quero avançar, o tal rumo que procura evitar a autocomplacência.
3. Recentemente amigos próximos apontaram-me duas características vigentes, não especificando se as julgavam conjunturais ou perenes. E refiro isso pois associo essas considerações a isto do livro, a isto do “Torna-Viagem”, ainda que a tal não as reduza, dada a intimidade que as subjazeu.
Disseram-me esses meus amigos estar eu de ego inflacionado e também ser palavroso. Este segundo item será verdadeiro – e provo-o através deste texto que vos leio. Por um lado, escrevo longo (talvez por ter feito um curso de dactilografia aos 14 anos, e desde então teclar com os 10 dedos e de modo muito rápido), coisa que alguns me criticam –ainda que note eu isso de actualmente uma A4 a espaço e meio ser já sentida como uma violência cometida sobre o frenético “scroll down” alheio. Por outro lado, porque passei décadas a leccionar, também imerso em colóquios e seminários, pejado de reuniões (substantivas) e em intenso convívio com gentes de biografias densas enfrentando desafios extraordinários. Para, depois, agora, nesta minha condição de “torna-viagem” me ter remetido a um efectivo silêncio. E daí que “Pai” - há já anos se preocupava a minha filha - “tu falas sozinho!”. Sim, faço-o, e muito, quotidianamente. Será essa a razão de quando em convívio amigo me alargar, palavroso assim…
Mas o primeiro item que me foi apontado, isso de entoar eu, qual Bianca Castafiore, o célebre trinado “Ah, rio-me de me ver tão bela neste espelho” deixou-me estupefacto. Não cultuo a humildadezinha, que remeto para o salazarismo cultural – nada exterminado, é necessário dizê-lo neste mês de rituais loas ao dito fundacional “25 de Abril”. Mas sei-me autofágico, sigo autodescrente, nada auto-encantado.
Remeto então essa invectiva para um mal-estar diante deste atrevimento que me é constante desde há vinte anos, o da escrita amadora em blogs e agora, ainda mais, o de coligir textos e dar-lhes forma de livro, mesmo que nesta modesta (humilde, agora sim) modalidade de “edição de autor”. E, por deformação profissional, ancoro esse viés alheio (até talvez inconsciente) na continuidade dessa mentalidade de controlo social presente em tantas das religiões espiritualistas. A qual invectiva os “atrevidos” - os que se colocam em “bicos dos pés” -, fazendo uma qualquer coisa, singela que seja, como esta, que destoe daquilo que os outros consideram adequado ao seu perfil. Por outras palavras, (como é este meu caso) quando um sapateiro quer tocar rabecão logo é dito feiticeiro…, e isso os meus amigos moçambicanos logo reconhecerão.
Serei veemente, ácido também, às vezes descaio para o azedo. Mas isso não é ser egocêntrico, é também fruto da condição “torna-viagem”. Essa que é, bem no fundo, por definição até, o rumo de um antropólogo. Isso do ir longe – mesmo que seguindo aquele velho lema do Turismo de Portugal, o “vá para fora cá dentro” -, isso do ir longe, dizia, para depois retornar e olhar o circundante nosso de uma forma menos pacífica, menos “naturalizada”, e assim muito menos incontestável. Sou nisso, na escrita de temática abrangente que quase expurguei nesta colecção, mais do que um mero antropólogo. Ou seja, a minha veemência é outra. Pois sou acima de tudo um patriota – palavra que os amigos moçambicanos logo reconhecem, louvam e sentem, e a que tantos de nós portugueses arrepia. Pobre gente, que se envergonha de ser patriota. E pior gente, aquela que não é patriota.
Mas não é essa escrita abrangente que convoquei para este meu “Torna-Viagem”. Neste juntei simples crónicas, umas germinadas em trabalhos de campo, a maioria em vivências esparsas. Alguns de nós, antropólogos, tentaram refractar as experiências de terreno em formatos ficcionais. Normalmente com resultados frustres. Pois a ficção, mesmo que autobiográfica, tem um “je ne sais quoi…”, que escapa à esmagadora maioria dos letrados profissionais, mesmo aqueles que, como nós, têm a obrigação da escrita detalhada e a ambição da escrita atraente. Também eu, um dia, já bem recuado, me imaginei escrevendo um Under the Volcano em Pemba. Mas, felizmente, poupei-me a tal embaraço.
4. Já me escreveram, desiludidos, por este meu livro não conter análises críticas a Moçambique. A minha análise atiro-a para outro tipo de textos, de figurino científico, aquele das referências bibliográficas, rodapés convulsos, vasta bibliografia e argumentos urdidos e que procuro blindar. É nesses alguns textos que tenho a minha interpretação do país, sempre implícita – pois não sou um mariola “intelectual orgânico”, desses que se filiam a “boas-causas” para justificarem a falta de leituras e a reduzida complexificação da argumentação.
Nestas crónicas é um antropólogo que escreve. Nisso ultrapassando a velha pecha cultural (de tradição católica, quiçá) que afasta(va) os portugueses do registo memorialista. Mas mais do que isso, informado e formado (formatado, diz-se no coxo português actual) por uma tradição intelectual, antropológica. Não porque os textos sejam – ou tenham querido ser – “intelectuais”. Mas por serem a minha tentativa de exercer um “olhar distanciado” (como apregoa o belo título de Lévi-Strauss). Deliciado em Moçambique, mas nunca encantado – nunca em busca do “exótico”, “diferente”, “ritual” e quejandas aldrabices. E em terra própria, neste meu “torna-viagem”, tantas vezes exasperado mas nunca… empenhado, como querem os dos simplismos.
Mais do que isso porque antropólogo crente num valor axial, o do olhar indutivo. Isso de não reduzir uma (mais ou menos) breve crónica a um paleio opinativo – como é tão comum na nossa imprensa. Mas sim crer que se pode e deve (sim, é ético) usar o talento disponível, parco que seja, para olhar algo, episódico de preferência, e através disso ilustrar a complexidade do que nos rodeia. Sem manifestos. Por isso, para exemplos, falo de uma chinesa prostituta de rua em Maputo ou de um molwene (um ciganito, dizia-se antes por cá) que ali me chama “brasileiro” – sem precisar de elaborar sobre alterações climáticas e carvão ou o neocolonialismo selvagem. Ou recordo querer fumar um cigarro entre sportinguistas, à porta do café Império, e ter um vendedor de “etnia asiática” – como agora dizem os aldrabões e o actual Estado português – a regatear o preço de uma caixa de fósforos. As coisas denotam e as crónicas devem ser denotativas. Não programáticas.
E finalmente segue este meu livro, sem críticas – tirando uma ou outra canelada – pois a maioria dos textos vieram de uma era magnífica da minha vida. Num país atraente, então muito prometedor, com trabalhos exaltantes, entre gente magnífica. Sendo português e procurando o bem comum possível. Ainda jovem, vivendo um amor perene, projectando Carolinas e vendo medrar a Carolina. E quem não consegue abstrair-se do resto todo em prol disto, nada consegue perceber.
Ou seja, e como eu deixei numa dedicatória – os tais gatafunhos apostos ao livro – nestas historietas está a minha mundividência. A do tal antropólogo, palavroso, patriota, agora torna-viagem, quase sexagenário. Espero que seja interessante. E se vos for interessante recomendai, por favor, o livro a outrem. Pois será a única divulgação que o livro terá.
Como nem todas as notificações são… apercebidas, deixo aqui ligações para dois postais relacionados com este, um relativo à apresentação do Torna-Viagem em Évora, outro com a primeira parte do último texto do Sentido Obrigatório:




