Um Bimbo em Belém, Séneca em Alcântara, racismo literário e o restante Julho.
Esta é a 14ª Gazeta. Contém 5 breves textos: 1) Um bimbo em Belém; 2) Séneca na Fábrica Lisboeta; 3) Racismo em Lisboa; 4) Uma bela recordação; 5) O Bloco (de Esquerda).
Para quem se interessar: o acesso às anteriores é através desta ligação.
1. Um Bimbo em Belém
Christoph Poppen é o renomadíssimo maestro alemão que inventou e vem realizando o magnífico Festival International de Música de Marvão (programa de 2026), homem ao qual o nosso país tem de estar imensamente grato. Conduziu ontem, 31 de Julho, o último concerto do dia, no belo cenário das ruínas romanas de Ammaia.
Foi este o soberbo programa do concerto - integrando a estreia europeia da peça da compositora suíça Alice Yeung, que ali compareceu, a qual fora apresentada em Hong-Kong há apenas 15 dias.
Este Festival, já na sua 12ª edição, sempre conta com o mais-que-simbólico Alto Patrocínio da Presidência da República. E desde há anos que a sessão na Ammaia é uma espécie de informal “concerto do Presidente”. Este não só comparece como endereça convites para o corpo diplomático acreditado em Portugal. Assim sempre fez Marcelo Rebelo de Sousa, que ali surgia recebendo os seus convidados e convivendo com os outros espectadores. E ficando para os dias seguintes de melomania, nisso deixando-se também exercer a sua típica, mais “disponível”, interacção com os cidadãos.
Ontem António José Seguro estreou-se em Marvão como presidente. Chegou à tarde para cumprir o seu programa. Reuniu-se em convívio com as “forças vivas” locais - estas, ao que consta, um pouco amesquinhadas devido à presença presidencial ter sido confirmada apenas três dias antes, com os angustiantes e desnecessários problemas logísticos e … preocupações securitárias que tais delongas sempre causam num pequeno município.
Depois dessa reunião política, e apesar de estar nas proximidades, Seguro fez-se atrasar, retardando o concerto - crime de lesa-majestade no reino da música “clássica” (e mais o sendo numa organização dirigida por alemães!…). Como se não bastasse essa rudeza, o tão respeitável maestro Poppen quando subiu ao palco para enunciar as peças a executar viu-se compelido a pedir aos presentes que não se levantassem após o final. Para que o Presidente pudesse sair de imediato, sem incómodos e … “em segurança”!
Estupefactos ficaram os espectadores, até irados alguns deles. E após o último “encore” e os devidos aplausos todos se levantaram para sair. Não aguardando a saída de “Sua Excelência”. Uma enorme chapada colectiva…
Durante a década dos seus mandatos Marcelo Rebelo de Sousa amarfanhou a função presidencial, amputando-lhe a gravitas sempre necessária. Não o fez devido às suas características pessoais, como muitos afirmavam. Mas por ser portador de um muito reaccionário projecto cultural e político (sobre esse viés de populismo manso deixei neste postal a secção “Rebelo de Sousa 19.12.2016”), cuja vacuidade se resumia à imagem convivencial do presidente, nisso até histriónica.
Pelos vistos Seguro entende de maneira diferente a sua pose presidencial, a qual é, friso, um conteúdo. E nisso segue prisioneiro da pobre noção de ser a gravitas um produto do altivo provincianismo de “ser o último a chegar e o primeiro a sair”. Enfim, há um bimbo em Belém. Ou então há um punhado deles, assessores por ele escolhidos. Os próximos tempos o dirão.
2. Séneca na Fábrica Lisboeta
Cruzei a cidade até à Fábrica Lisboeta, um velho reduto fabril que há anos passou a arremedo de feira popular bon chic bon genre, aspiração que terá obrigado os “empreendedores” a estrangeirarem-lhe o nome.
Ali fui para assistir a uma conversa sobre um livro que tem sido (merecidamente) cumulado de elogios. Após a qual me sentei numa esplanada defronte à Ler Devagar, lendo devagar o livro que levara e bebericando uma caneca. Passou uma amiga e desafiou-me para jantar com um pequeno comité.
Agradado aprestei-me a isso. Pedi a conta - 5 euros pela tal caneca! Murmurei “da-sse” - or should I say, fuck!?, pois esse é linguajar adequado àquele amontoado de barracões que anuncia devotar-se a manter um “look & feel industrial”, espaço que sociólogos dizem “icónico” e “democratizador” pois dinamizador da “rede global de circulação de pessoas, ideias e capitais”, incentivado pelos decerto que ilustrados documentos Plano Diretor Municipal de 2012 e Estratégias para a Cultura da Cidade de Lisboa.
Enfim, paguei e juntei-me ao grupo comensal. Um quarteto da literatura, eles em animada conversa sobre temas e gentes - livros, poetas, os podcasts de agora… - que desconheço. É um ambiente que me é excêntrico, com alguma tendência para uma (para mim) além-realidade. Mas ali representado por gente sedimentada e desprovida do mero “name-dropping” (como aqui comprovo os anglicismos não me são tabu, malgré tout…) tão habitual no lisboetismo. Pois estes cultos e diligentes. Por isso tão agradável me foi o convívio, fruindo aquela diversidade de interesses e saberes.
De súbito um deles anunciou saber da iminente edição um livro com textos de Séneca sobre morte - notícia que eu decerto não ouviria se estando entre os meus. Retive, sorrindo para dentro. Pois, como os subscritores e visitantes do “O Pimentel” terão notado, essa morte anda frenética na minha vizinhança, tanto que venho dando conta do meu desconforto. E há muito que não leio Séneca…
Regresso a casa, da estante retiro o “Cartas a Lucílio”, passeio pelos sublinhados. Onde há já décadas assinalei os verdadeiros valores civilizacionais ali apostos, o real sagrado da vida que estes supersticiosos ultra-católicos de agora ainda tanto combatem: “Um homem corajoso e sábio não deverá fugir da vida, mas sim sair dela; acima de tudo importa evitar uma paixão que tem assaltado muita gente: a paixão pela morte (…) muitos são (os) que através dos tempos têm demonstrado desprezo pela morte (…) nós não devemos recear a morte, como a ela devemos o termo dos nossos receios!” “Ninguém pode obter uma vida segura se continuamente pensar em prolongá-la, se considerar entre os bens mais preciosos um grande número de anos”.
Há uma ano deixei aqui o postal “Eutanásia”, usando um filme do insuspeito John Wayne para referir a inércia cultural portuguesa sobre a matéria, agora até com uma lei deixada em processo de infundice. Neste mês em França - país cuja cultura antes nos foi tão influente - foi aprovada a lei da eutanásia. O que por cá foi ignorado, enquanto todos se animam a discutir … o atrelado do ministro, as notas dos putos charilas e os dislates de Trump… charilas. E, mais ainda, as contratações dos clubes de futebol…
E, entretanto, também reparo noutro sublinhado, algo que Séneca escreveu em meados do século I: “verificarás que a ira dos escravos não fez menor número de vítimas que a dos reis!”. Como dois mil anos de “activismo” vieram provar.
Enfim, ainda bem que fui à Fábrica de Lisboa. E que fui convidado para jantar.
3. Racismo em Lisboa
Calema é um duo musical - ouço-o agora, com algum fastio, pela primeira vez enquanto escrevo este postal - constituído por irmãos. A informação digital di-los santomenses e também com ascendência cabo-verdiana e portuguesa - aliás, esta última surge até um pouco implícita, pois um dos irmãos levou o nome de Fradique Mendes Ferreira…
Os Calema são cá imigrantes há cerca de duas décadas. Têm presença constante na televisão e presumo que noutros órgãos de comunicação social. E vêm conseguindo um enorme sucesso popular - deles ouvi falar pela primeira vez quando no ano passado fizeram um espectáculo no Estádio da Luz com 55 mil espectadores.
É evidente que não irei aqui afiançar que os dois irmãos santomenses nunca terão sofrido, no nosso país, do desagrado alheio, oriundo de estuporados preconceitos raciais pois “que las hay las hay”… Mas aqui vivem há duas décadas, obtêm sucesso profissional e, espero, realização pessoal.
E também sei que há meios profissionais, em particular artísticos, onde essas cretinas barreiras raciais vão sendo menos presentes. O desporto é uma delas. A música é, desde há muito, uma outra. Há dias reli um delicioso livro Carl Israel Ruders, Viagem em Portugal 1798-1802, no qual esse capelão da legação sueca deixa um belo retrato da época. Também ele homem do seu tempo, nada atreito aos negros [“ninguém é capaz de imaginar coisa mais horrenda que o contraste dos cabelos brancos sobre um rosto negro”], deixou algumas notas sobre os que ia encontrando, com algum desconforto, no nosso país.
Entre os quais… músicos: “à noite, depois do escuro, queimaram-se barricas de alcatrão, ao longo da praia de Setúbal, em honra de São Pedro, cuja solenidade se celebra no dia seguinte. Lançaram-se, também, foguetes e buscapés e nas varandas de muitas casas havia pequenos fogos de artifício. Os numerosos negros aqui residentes passam o dia em grupos diante das casas, dançando as suas danças características, que, sem serem bonitas, são, contudo, curiosas. Essas danças executam-se com o acompanhamento de uma música nacional muito feia. Com elas os negros realizam o duplo fim de mostrarem sua devoção e ganhar algum dinheiro.” (p. 59).
Talvez eu seja ingénuo, mas quero crer que os nossos valores predominantes não são já os do final de XVIII. E também presumo que aceitação dos negros na “Europa musical” se tenha sedimentado antes - e mais - do que noutras expressões profissionais devido à influência do jazz, como mostra o José Navarro de Andrade no seu belíssimo livro “Toque de Jazz”, que muito recomendo aos veraneantes… Ainda assim julgo que os “negros” - as pessoas insistem nesta categorização não só vetusta mas também radicalmente imbecil - não continuam por cá algemados à maldição de Cam.
O que implicará que, por implícitos obstáculos e explícitos malquereres que subsistam, haverá alguma abertura para a sua participação em actividades profissionais, e falo em particular das ligadas às expressões artísticas e intelectuais.
Há tempos passou-me pela frente uma edição da popular revista “Time Out”. Nela consta a divulgação laudatória de um editora exclusivamente dedicada aos negros, cuidadosamente ditos “pessoas negras” não fossem outros duvidar da “pessoalidade”.
Trata-se de uma empresa subordinada a uma ideologia exclusivista assente em critérios raciais - ainda que possam recorrer a serviços técnicos de “pessoas não negras” apenas publicam textos escritos e traduzidos por “pessoas negras”. E isto é aceite, divulgado e até louvado!
Entretanto, informa a empenhada responsável, anunciada como especialista em “leitura sensível” de português, ter produzido um “guia de estilo”, indexando os termos que a literatura (original ou traduzida) deve evitar. E através do qual também defende - publicamente - a racista regra da “one-drop”. Pois o tal “guia de estilo” “inclui termos a evitar, como a palavra “índio”, que deve ser substituída por “indígena”, “povos originários” ou “nativos”, ou “mulato”, “uma palavra extremamente ofensiva. Oferecemos como alternativa pessoa de ascendência mista, mestiça ou mesmo só pessoa negra” - ler bem este trecho, sff, que aqui está a maldita regra “one-drop” escarrapachada…
E tudo isto, ao que afiança, se deve a que Portugal “ainda tem muitas feridas abertas causadas pelo colonialismo e que, enquanto nação, nos recusamos a tratar e muitas vezes até a abordar”.
Ou seja, os Calema podem juntar-se à Catarina Furtado no horário nobre televisivo e encherem o estádio da Luz. Mas, pelos vistos, os escritores - ficcionistas, poetas, ensaístas - estão desconsiderados, tal e qual os acantonados e miseráveis negros músicos de Setúbal, tocando a sua “música nacional muito feia”. Em 1799.
E há gente que aplaude esta via, “intelectual” e “empresarial”. Que é puro racismo! É evidente que o apreço por esta miséria moral e intelectual é mero paternalismo. Essa doença senil do racismo.
4. Uma bela recordação
O meu amigo Fernando Pereira, legítimo olivalense, avisou-me: no canal SIC Radical - que eu nem sabia que tinha no rol disponível - está a passar o folhetim televisivo Boston Legal. Eu acompanhara-o com desvelo - e até blogara sobre isso (em 2011!!, e ele lembrava-se disso…). Eram-me tempos mais felizes, tornava-se assim mais fácil gostar … das coisas.
Mesmo sendo eu pouco atreito a ver os folhetins televisivos logo acorri, em extrema saudade, a gravar os episódios. Tenho-os visto, com imenso prazer. Mesmo sendo uma mera “série de tribunal”, pouco complexa. E aqui recordo o que então escrevi:
A Boston Legal é uma delícia, muito para além de mais-uma-série-de-advogados. Boa produção, e sobre isso passo, ainda que tenha de notar representação e diálogos. Mas o interesse vem ainda mais na forma como transpira a América de Bush, sistematicamente posta no banco dos réus e zurzida pelo nada correcto - mas algo contido - Alan Shore (James Spader). Série assim “liberal” casa, e de que modo, com o fantástico até misógino, supra-nada correcto, Denny Crane (o lendário William Shatner, grande actor, o sempre Captain Kirk).
Ou seja, Boston Legal é um belo exemplo como se pode fazer, e em pleno EUA, uma radical crítica dos pressupostos mais direitistas sem cair nas garras da intolerância puritana do “correctismo” que tanto tem azucrinado as pessoas de bem por esse mundo fora.
Depois há uma outra coisa que vale... platina. A recuperação da amizade máscula, Alan Shore e Denny.... Crane (grande personagem) são uma parelha como as antigas. Numa era em que se deslizou da horrível homofobia para a pérfida homofilia é uma maravilha, e até uma atitude política, assistir a esta dupla, bebedora, fumadora, dois homens amigos. Homens díspares amigos. Boston Legal é (foi?) um manifesto. Elegante, nada linear. E tão necessário.
(Obrigado Fernando, por me teres avisado)
5. O Bloco
O “major” (de facto coronel) Tomé e 59 dos seus correligionários anunciaram o fim do Bloco deles. Aquela federação de grupelhos vai-se esvaindo. Bastante influenciou a “lisboa” durante primeiro quartel do século, um anacronismo que deixou marcas. Culturais, na flanante altivez antidemocrática (quem andou na velha “blogosfera” lembrar-se-á) . Políticas, no culto identitário, uma retórica que lhe foi apropriada para promover a legislação destinada à introdução de vagas de mão-de-obra subremunerada, num “compromisso histórico” com a burguesia nacional mais conservadora.
O coronel interrogar-se-á agora “o que é que eu vou fazer fora do Bloco?“. Com as suas idiossincrasias Mário Tomé tem um passado cheio. Respeitável o suficiente para não se lhe responder com azedume.








