O rescaldo do meu 25
Deixo as minhas impressões pessoais sobre 2025, nada abrangentes.
2025
A Vida
Por coisas cá minhas, regressei a este “Les Chairs de la Mort” de Louis-Vicent Thomas, obra (póstuma) de quem passou duas décadas a investigar no Senegal. Calhamaço (quase 600 páginas) apaixonante, também por ser muito debatível mesmo se encantador - apresenta o tratamento à morte concebido como âncora e bússola da vida social. E o qual me está a ser mais uma demonstração de que reler apenas através dos sublinhados prévios é insuficiente…
Mas se as leituras se encadeiam ainda mais isso acontece com as releituras. Por isso intervalei-me no regresso a um belo texto (“Tristes Dureés” de 1983) do grande Hermínio Martins, introduzindo o tão interessante “A Morte no Portugal Contemporâneo”, no qual explicitou que “todas as grandes transformações na história moral do individualismo ocidental foram acompanhadas por transformações nos regimes de percepção da morte e nas modalidades de os tornar significativos”.
E logo investi nas estantes, em busca do célebre “O Homem Diante da Morte”, de Philippe Ariés, relendo-lhe o último capítulo, sobre as transformações então (1977) mais actuais - essas que, meio século passado, são agora mais vincadas. Firmando este contexto de privatização da morte, “estabelecido o dispositivo psicológico que retirava a morte da sociedade, lhe retirava o seu carácter de cerimónia pública, fazia dela um acto privado, reservado em primeiro lugar aos próximos, e daí, com o tempo, a própria família foi afastada quando a hospitalização dos doentes terminais se tornou geral”. E nisso se veio tornando indecente o luto, pois “a dor do desgosto pode subsistir no coração secreto do sobrevivente; a regra é hoje em quase todo o Ocidente que nunca deve manifestá-la em público. Exactamente o contrário daquilo que dele se exigia antes”. Assim se exige que requeramos a solidão diante da morte, alheia. E, depois, face à nossa própria.
Mas lembro-me de muito dizer que “em Moçambique aprendi uma coisa: que as pessoas se enterram”, tamanha a profusão de funerais em que lá participei, de alguns (então poucos, felizmente) amigos, mas também de inúmeros conhecidos, colegas e seus familiares. De assistir, ateu, às cerimónias religiosas, e de desfilar diante dos féretros. Até, por vezes, de me juntar às refeições posteriores. Estas acompanhadas das evocações daquele que então “perdera a vida” (como lá tanto se diz). Vivendo-se a morte de modo público, pois comungado… Desse modo integrando-a no quotidiano. Exaltando-a? Pelo menos fruindo-a, irmanando…
Tão diferente do que aqui surge, desta mudez até solitária diante da morte - polvilhada, apenas por vezes, do breve “abraço” num singelo velório (esse que até já começa a escassear) ou de um escasso brinde “à dele”. E “pronto”, está feito…! Num efectivo expurgar da morte do nosso rumo.
Ora não encontro qualquer “charme discreto da burguesia” nesta vigente reclamada mudez do luto. Modo vivido entre os menos cultos - mais “campónios” dir-se-ia nas gerações precedentes -, e de um modo nada paradoxal, com a quotidiana ladainha sobre achaques, artrites, vesículas desarranjadas e outras minudências, próprias e alheias, presentes ou recordadas, estas últimas evocadas até como se feitos cometidos. Conversas constantes, de facto (pres)sentidas como se biombo da morte!
Em 2024 aconteceu-me tornar-me sexagenário. Nesse entretanto um bom companheiro telefonou-me, anunciando “vou deixar de ser teu amigo!”. “É que te está sempre a morrer gente!!”, adiantou, rindo-se, espantando o negrume. Agora, e influenciado por estas leituras de fim de ano, deixei-me - sem necrofilias - fazer o meu rol dos meus que partiram durante 2025, que foi - neste âmbito - ainda mais abrasivo. Percebi que me haviam morrido 19 pessoas próximas (“gente com quem partilhei refeições”, descrevi): amigos muitíssimo íntimos; companheiros de longa duração; colegas simpáticos; e ainda alguns remanescentes gentis familiares de grandes amigos.
E é neste meu luto publicito o meu acabrunhado rescaldo de 2025: foi o ano em que me morreu muita gente, desertificando-me, magoando-me. Nada me foi mais importante do que isso.
Alguns mais letrados poderão invocar Montaigne - esse verdadeiro doutor Frankenstein do “Homem Ocidental”, e do qual também agora me socorri - que invocou o estóico Séneca para firmar que “filosofar [reflectir, entenda-se bem…] é aprender a morrer” (“Ensaios”, I, 20). Mas não se trata disso, pois até esse Montaigne, quando já mais-velho (“Ensaios”, III, 12), se mudou um pouco, talvez se des-senequizou pois com a idade tornado menos estóico face à empiria da existência, mais analítico do que encontrava: “Nous troublons la vie par le soin de la mort, et la mort par le soin de la vie. L’une nous ennuie, l’autre nous effraie. Ce n’est pas contre la mort que nous nous préparons … À vrai dire, nous nous préparons contre les préparations de la mort”.
E é isso que precisamos de ultrapassar, inverter até. Foi isso que retirei de 2025, a necessidade de trazer a morte para a vida, vivê-la - também por isso esta minha secção “in memoriam”. Sabendo-a, sofrendo-a, trágica quando dos mais-novos. Mas normal quando entre-nós. E nesses tantos casos, constantes, celebrando-a, como corolário da vida. Sempre reaprendendo de que o difícil não é morrer mas sim viver entre mortais.
E, entretanto - mas isto já é política -, reclamando o direito, urgente, à eutanásia.
O Acontecimento do Ano
(Para mim o mais importante acontecimento de 2025 ocorreu logo no início de 2026).
Há uns dois meses fui à Guarda a um festival fotográfico. A minha sessão tinha 3 oradores, eu falaria em último lugar. Mantive o telemóvel comigo - para olhar algumas notas alinhavadas e ver algumas fotografias às quais aludiria. Enquanto falava a primeira participante (Ana Mafalda Leite) recebi uma mensagem, oriunda de outro continente. Li-a.
Era de um grande amigo, meu mais-velho. Homem cultíssimo, comigo sempre gentilíssimo, histórico comunista austral ("não me venhas com coisas, conheço-te bem" - tantas vezes lhe disse, em cúmulo de carinho - "pensas como o meu pai", o Camarada Pimentel). Totalmente avesso a derivas racialistas, muito mais ainda a racismos. E também a oposições "étnicas" - aliás, ele e os seus desde sempre invectivando o "tribalismo"...
Escrevia-me em cuidados. Pois, sabendo-me olivalense, queria saber se estava tudo bem comigo, dado que acabara de ver um filme partilhado com um tiroteiro diurno nos Olivais. Respondi breve, que estava fora e de nada sabia... Pouco depois subentendi que teria visto no Facebook a partilha de um filme respeitante a um episódio recente, e que o julgara actual. E alarmara-se! Enfim, uma breve memória pessoal para sublinhar que não é preciso ser "preconceituoso", "ressentido", "reaccionário", "racista", "fascista" nem mesmo "português" ou "residente" para alguém se preocupar com a segurança pública deste aqui.
Quem cresceu, como eu, nos Olivais dos anos 1970-1980 e até mesmo nos seguintes, viu e ouviu muitas coisas. Um bairro de grande complexidade social (uma tentativa de "melting pot"), agitado pela relativa desestruturação da ordem pública instaurada no Estado Novo - que subsumira o plano urbanístico instaurado. E, muito mais, pela disseminação da heroína, que devastou a época. Muita criminalidade, muita violência, muitos roubos. Os Olivais eram então famosos por tudo isso.
Voltei aqui há uma década. O bairro estava emprobrecido pois com população envelhecida. Devagar, veio-se "gentrificando" (novas gerações) e, agora, "cosmopolitizando" (imigrantes de várias origens). Mesmo se continuando descuidado, pois sujo, inactivos os espaços públicos, esvaziado de comércio local, o que implica a desertificação da vida "social". Nisso desprovido de induções estatais e de investimentos empresariais de monta.
Mas é seguro: não há ecos de assaltos a casas ou a transeuntes, nem de roubos de carros. Inexistem os velhos "dealers" a céu aberto - é certo que continuam a rebentar cíclicos foguetes, porventura anunciando, reza o mito urbano, a chegada de "produto". Nem há avatares de "junkies" persecutórios ou outros bandos de mariolas agressivos. Indício disso (empiria pura): basta estar à noite a beber um copo numa barraca nas cercanias do metropolitano para ver inúmeras mulheres regressando a casa, sozinhas sem temores. Tão diferente do que era antes, quando até a nós, grupos de tipos jovens e rijos, conviria olhar em redor... E, já agora, inexistem as outrora omnipresentes "ramonas", a polícia já nem precisa de andar pelas ruas noites afora.
Mas volta e meia há ecos de problemas grossos. (Quase) Sempre oriundos de áreas habitadas maioritariamente por portugueses, de longa ascendência pátria. Ditos, no actual linguajar mediático, "de famílias numerosas" ou, vá lá, "grupos". Sabe-se de zaragatas fortes, colectivas. Com uso de armas, brancas e de fogo. E, agora, coisa inaudita: metralhadoras!
Em 2026 entram metralhadoras nos Olivais! E são disparadas! E, com toda a arrogância da impunidade, os atiradores fazem-se filmar. E, atente-se bem, os circundantes não chamam a polícia, não denunciam o facto: porventura por solidariedade inter-"comunitária", quase decerto também por pavor inter-vicinal. Causado pelo deslaçamento com o Estado democrático envolvente. O qual é também estratégico, procurado, pois produto de uma - essa sim - cultura. Confrontacional.
Enfim, há metralhadoras disparadas a cinco minutos de minha casa. Eu irrito-me. A rapaziada douta do eixo Campo Grande a Campolide, passando por Entrecampos, os acantonados em Telheiras, Avenidas Novas e alguns proto-condomínios alhures, que cruzem este postal lá me dirão "preconceituoso", "reaccionário", talvez até, os invertidos, "machola". Mesmo "chegano".
Bardamerda!
A Cidade
Durante 25 onde mais fui foi a Lagos, todos os meses. Pois tive a sorte de me agregar ao clube de leitura (“o melhor clube de leitura do mundo”, haviam-me avisado e agora afianço-o) da biblioteca municipal “Júlio Dantas”, tão bem dirigida por Luís Bordalo. Nisso muito regressei à Lagos que foi da minha tardo-adolescência (aquela dita “Légos”), naqueles veraneios convulsos de festivos. Mas também, depois, de feliz conjugalidade - casado que fui com Senhora de ascendência lacobrigense. Assim sendo, a cada mês que lá chego é uma comoção, feita de recordações de sentimentos.
A cidade não está devastada - como tantos outros lugares turísticos - mas segue muito descaracterizada. Por isso, resmungão, fiz um diaporama (ao qual abaixo deixo ligação) sobre como está actualmente. Mas isso não lhe impede o encanto…
Estar num clube de leitura implicou-me o rumo de … leituras. Neste 25 pouco novidades li. Pois preso ao tal encadeamento livresco. Proposto um “Contos” de Flaubert, um “Metamorfose” de Kafka, um (afinal) magnífico “O Falador” de Vargas Llosa, o monumento “O Amor em Tempos de Cólera” de Garcia Marquez, o único “A Obra ao Negro” de Yourcenar, e outros deste quilate, logo associei essas releituras a várias outras desses autores.
Mas, e mais do que os livros lidos ou a Lagos das minhas memórias de juventude, o encanto dali vem-me agora de um grupo de dezenas de pessoas gentilíssimas, com afã leitor e que tanto apreciam falar sobre livros, debatê-los com afinco, de modo descomplexado, sem ademanes. Ambiente que não encontrava desde Maputo… e que temo não reencontrar alhures, pois muito me fará falta. Por isso cada ida a Lagos - no comboio através do belo “Passe Verde” ferroviário - me é um júbilo.
Assim, em 25 (e também já neste 26), aclamo Viva Lagos! E Viva a Biblioteca Municipal Júlio Dantas!
O que me ficou
Do ano terminado ficou-me bem menos do que ambicionara. Apenas este livro “Sentido Obrigatório: acerca de Moçambique”. Nele agreguei 30 textos sobre Moçambique e com incidência política. Alguns antigos, outros recentes, um inédito - no qual fiz a minha história política do país, e que também aqui coloquei.
Durante parte do ano andei impingindo o meu anterior “Torna-Viagem”, cem crónicas da minha vida, quase uma autobiografia. Para o divulgar organizei até umas excursões - a Setúbal e a Évora (da qual deixei relato aqui) -, as quais foram óptimas e divertidíssimas. O “Torna-Viagem” foi um sucesso de vendas (para a modalidade de edição através de impressão por encomenda - a qual se pode fazer aqui), tendo ficado a apenas 5 exemplares do mítico número de 333 exemplares vendidos…
Já este meu “Sentido Obrigatório” colheu menos interesse, nem 100 vendeu (na junção da edição em papel e na de e-book). Talvez por o tema abrangente (Moçambique) não ser tão atraente, mas decerto que mais devido às pessoas se terem cansado das minhas coisas. Mas a apresentação do livro - que narrei aqui - foi uma grande festa, um momento jubiloso, daqueles “para mais tarde recordar”. Uma recompensa suficiente, para além da satisfação tida com o meu empenho na composição, rejuvenescedor.
Introdução à Política
Aos 61 anos estreei-me (e logo depois me retirei) na actividade política. Expliquei-me neste postal (mas também noutros textos na secção Olivais): após 36 anos de uma gestão PS na freguesia dos Olivais era (e continua a ser) urgente uma mudança na Junta, dado o destrambelhado clientelismo ali vigente. Integrei a lista proposta pela coligação CDS/IL/PS (fiz esta fotografia na sessão de apresentação dos candidatos a presidentes de Junta da coligação liderada por Carlos Moedas). Como suplente 17º, nada mais do que participar no esforço. Era uma lista encabeçada por gente muito séria, competente e empenhada. Foi lamentável a derrota, ainda por cima mantendo-se o status quo nos nossos Olivais. Faltou-nos tempo para apresentação e apoio logístico - fiquei surpreendido com a escassez de meios para concorrer numa freguesia com 32 mil eleitores (!). E, decerto, faltou experiência política aos integrantes da lista e seus apoiantes, necessária para obter maior repercussão. Mas acima de tudo, faltaram… 800 votos.
Não escondo, fiquei mesmo desiludido com esta derrota. Foi uma oportunidade perdida para o meu bairro.
e também,
Duas décadas de bloguismo implicam um vício. Em 25 transitei para esta plataforma, deixando o anterior blog “Nenhures” (instalado na SAPO).
Foi muito positivo. Pois publicar na plataforma Substack implica o acesso a excelentes autores internacionais aos quais não acompanharia regularmente caso não estivesse aqui “estabelecido”.
Além disso, esta plataforma é mais ágil do que os sistemas de blog que antes utilizara. E divulga-se mais “O Pimentel” tem cerca do triplo de leitores do que o anterior “Nenhures”. Finalmente há a questão (apetitosa) das subscrições remuneradas, isto de ser pago para escrever. Não sendo abundantes têm sido simpáticas.
Às vezes penso em reestruturar o blog, fazendo-o temático, especializado até. Talvez assim aumentando o número de pagantes. Mas, para além da minha falta de talento comercial, ocorre-me que fazendo-o perderia o gosto da escrita aqui, que me sai consoante o que me apetece.
Para quem se possa interessar deixo aqui a ligação ao postal (filme) inicial, a apresentação do “O Pimentel”, em Abril passado.
Resoluções para 2026
No postal “O Colonialismo Exposto” ecoei a minha opinião sobre uma exposição dedicada à expansão pré-colonial e colonial portuguesa em África. Ao meu (grande) desagrado posso-o resumir assim: não creio que haja uma correlação unilinear (e suficiente) entre as obras de Zurara e do Frei João dos Santos, as andanças de Silva Porto e de Lacerda e Almeida e tantos outros fenómenos históricos, e o actual movimento “Black Lives Matter” ou os dislates freneticamente proferidos por uma qualquer deputada do partido LIVRE. Crença que, de facto e sem rodeios, baseia a tal exposição.
Como corolário disso dois professores de Antropologia do ISCTE viessem a público negar a minha condição de antropólogo, em evidente deriva corporativa (salazarenta, se se quiser vincar, dado que o corporativismo foi o verdadeiro substrato ideológico do Estado Novo). Não respondi à letra - não o fiz porqu para isso teria de ser bastante azedo, nisto de chamar os mariolas pelos nomes… Aceitei assim a imposta condição de “apátrida” intelectual.
Agora, qual migrante “indocumentado” (“ilegal” é termo proibido para alguns núcleos corporativos, como se sabe), irei “trabalhar” clandestinamente. Ou seja, a minha resolução primeira para 2026 é publicar um calhamaço. Serão 13 textos sobre Moçambique, que foram escritos com retórica de (pelos vistos ex-)antropólogo. Não creio que vá vender muitos livros. Mas pelo menos terá título, “Basta Viver”, e como capa teráa fotografia que encima esta parcela. E um ISBN, que custa 15 euros…
Os Destaques Gerais
No blog colectivo Delito de Opinião temos a tradição de todos os anos votarmos entre nós os factos e as pessoas do ano, nacionais e estrangeiros. Deixo aqui o pequeno rol dos que escolhi, sem grandes explicações:
Pessoa Nacional do Ano: Bino Maçães
Em 1994 Michael Porter publicou o relatório que lhe fora encomendado pelo governo de então: "Building the Competitive Advantages of Portugal”. Nele aconselhava o nosso centramento em alguns sectores produtivos. Entre os quais o futebol. Foi um escândalo, as críticas jorraram…
30 anos depois o futebol - ainda que com pouco impacto nos grandes países asiáticos - é a “indústria” de entretenimento global mais divulgada, e em acentuado crescimento. Mesmo se com apenas 10 milhões de habitantes temos inúmeros profissionais internacionalizados (jogadores, técnicos, agentes, dirigentes, pessoal médico). É uma actividade nacional com raríssimo desempenho de excelência. E isso implica a continuada e planificada concatenação entre organização empresarial (em particular os grandes clubes nacionais), vigor associativo (os clubes, em particular os que se dedicam à formação), indução estatal (via Federação mas não só), formação especializada (os cursos e a formação contínua), e sageza na gestão de recursos humanos. Um amplexo produzindo um grande conhecimento (“know-how”, em futebolês). Ou seja, pelo menos nisto Michael Porter tinha razão. E esta actividade económica nacional pode ser analisada, qual “estudo de caso”, por outras áreas de actividade.
Bino Maçães coordenou um grupo que foi campeão do mundo de futebol, em sub-17. Por tudo isto julgo que foi ele a personalidade económica e política de 2025.
Pessoa Internacional do Ano: Venâncio Mondlane
É claro que não foi o homem mais influente do mundo. Mas liderou - encarnou - a oposição a um regime caduco e exploratório do seu povo. E repressivo. Os apoiantes militantes do regime e alguns críticos “lite” do Frelimo fazem por sublinhar os seus defeitos. Tê-los-á, decerto. A mim angustia-me, fundamentalmente, aquela sua religiosidadade política - pois sou ateu e furibundo defensor da laicidade estatal.
Não vou repetir argumentos. Aliás, como disse acima, juntei-os no meu livro “Sentido Obrigatório”. Escolho-o como pessoa do ano pois foi cara da esperança da mudança necessária. Mesmo que dolorosa. Mesmo que até trôpega. Em Moçambique e em tantos outros países.
Facto Nacional do Ano: Incêndios Florestais
O fogo sempre arderá. E haverá cíclicos anos mais abrasivos. Mas a continuada incapacidade política para desenvolver modelos de desenvolvimento da gestão florestal e demográfica parece-me ser o sinal mais gritante da modorrenta incapacidade do regime. “Para o ano há mais”, diz-se lá para Outubro. Quase todos os anos…
Facto Internacional do Ano: A Guerra no Sudão
O calvário de milhões continua, uma hecatombe. Pouca (pouquíssima) atenção internacional sobre o assunto. A meio do ano Anne Applebaum escreveu este bom “The War About Nothing”. Entretanto veio a Portugal mas não sei se lhe perguntaram algo sobre o assunto. É compreensível, o desprezo pela matéria não se prende a ser apenas uma “coisa lá de África”. Pois, de facto, o que não mobiliza as atenções sobre esta guerra infernal é que esta não pode ser traduzida nas nossas oposições ideológicas habituais (“esquerda” vs “direita”).
Ou seja, não é matéria-prima adequada aos nossos devaneios “identitários”, aquilo “eu sou…” “je suis…”, ornamentados de flotilhas anti-americanas, lenços palestinianos ou bandeiras ucranianas. Aquilo não nos interessa porque não nos… serve para nada.









