O Prémio Camões nos meus 62 anos
Agora aos 62 anos..., ontem, meu dia de aniversário, em Lisboa estava um calor de ananases (que não os do Mercadona). Convocado por desejo familiar, eu desafiara apenas meia-dúzia de próximos para um copo de fim de tarde na barraca do Evaldo, na Cidade de Bissau dos Olivais - essa mesmo onde desde há já três semanas decorre uma dadivosa Feira do Livro, na qual vizinhos deixam livros para quem os queira levar (como aqui publicitei, esperando captar participantes). Por lá passei até adiantado, mas para constatar que era tanto o calor e tamanha a minha depressiva má disposição que cancelei o pequeno convívio. Recolhi a casa e deitei-me ainda sob a luz do Sol.
Acordei às três. Liguei a televisão, constatei a vitória da selecção, surpreendendo-me pois antevira o sucesso dos coriáceos "croácios". Vi, em diferido, os emotivos quinze minutos dos "descontos". “Este ano é que é!!”, “A Taça é nossa!”, balbuciei entusiástico (ainda) entre remelas.
Depois fiz uma cafeteira e enrolei um de Amber Leaf. E sentei-me ao computador: estou pressionadíssimo, atrasado na entrega de um trabalho encomendado, o do refazer este texto. As causas disso são-me sempre as mesmas: sou um bloguista lesto, nisso até pecando por soberba. Mas se a escrita é "a sério" sai-me dorida, vagarosa, enquanto mergulho, inseguro a escorar-me, nas demasiadas estantes que me circundam e na infinita pirataria livreira digital. Já não mudarei, nestes meus agora 62 anos!
Ora antes de (re)começar a escrever li algumas notícias. E notei ter ontem sido atribuído a Lídia Jorge o Camões 2026 . Sorri! Pois se o Prémio é consagrador de carreiras literárias é também político. Ou melhor, é ideológico!
Desde logo, pois instaurado para afirmar uma ideológica - que se quer política - “comunidade lusófona”, um velho anseio salazarista. E também pelos seus procedimentos. Não só pela instituída, mesmo se dita apenas implícita, rotatividade nacional dos premiados, assim subordinando os méritos literários às nacionalidades dos escritores - anualmente alternando entre portugueses e brasileiros, de vez em quando a um “africano” e quando o rei fizer anos a um asiático... E pela constituição internacional dos júris que seleccionam os galardoados - postulando uma equidade entre campos académicos julgadores, a qual intenta simular uma igualdade da densidade dos ambientes intelectuais dos vários países.
E também o é, ideológico, por vezes com descaro, pelos critérios de premiação. Para disso exemplo recordo que aquando da sua atribuição a Chiziane tamanha foi a minha surpresa - pelas características literárias da sua obra mas também, secundariamente, pela excentricidade das perspectivas metafísicas da autora (as quais, e isso é bem significativo, não são publicadas em Portugal) - que fui ler a justificação do júri. E lá estava, explicitado até de modo cândido, o que eu antevira: a obra fora considerada premiável por ser alvo de muita investigação académica! Entenda-se, a premiação literária radicara no excêntrico factor das características identitárias apostas à autora serem atractivas para alguns meios universitários brasileiros, mais atreitos a temas como a “consciência africana” ou a visões simplistas do “género”.
Enfim, dado tudo isto desde há muito que pouco ligo ao Prémio Camões. Aliás, de facto, deixei de o considerar quando morreu o grande Ruy Duarte de Carvalho sem que lhe tivesse sido outorgado, ele autor de obra plural e gigante, mais relevante do que o rosário de premiados daquela época.
Ainda assim nesta madrugada atentei no prémio dado a Lídia Jorge. Não sou especialista de literatura - nem sou grande leitor de ficção contemporânea. Portanto nada adianto sobre os méritos literários da escritora. Mas devido à evidente dimensão ideológica do Prémio Camões reflicto sobre a pertinência desta atribuição, exactamente neste ano.
A maior honraria que o Estado pode conceder a um intelectual é atribuir-lhe o estatuto de orador no Dia Nacional, o 10 de Junho. Momento no qual se espera que divulgue ele junto da sociedade um diagnóstico, um “estado da arte” nacional, e até um rumo desejado, pistas de reflexão que sejam. Em 2025 Lídia Jorge foi convidada para essa tarefa. Proferiu um discurso lamentável - abordei-o aqui. A pretexto de causas benfazejas patenteou uma atrevida ignorância, demagógica até, desde o perorar inanidades raciológicas, tipo o patético “somos todos mulatos”, até desembainhar as culpas históricas e uma malvadez ontológica nacionais. E descendo à desonestidade, na verdadeira fraude de truncar o Zurara de que se socorrera para ilustrar os dislates proferidos.
Claro que o discurso foi bem recebido pela “imprensa de referência”. Numa disparatada entrevista à televisiva Davim, fértil em elogios à decana escritora, Lídia Jorge continuou a sua pose de sábia faroleira, espantando-se com as reacções adversas ao seu discurso, “escrito em dois dias” e para o qual “li dois livros”, como se atreveu a gabar-se.
Entretanto fora ao Brasil, a uma Feira do Livro, afirmar que em Portugal fervilha um projecto colonial. Nenhum “jornalismo de referência” ou académico dos “estudos literários” ou “culturais” indagou quais são essas actuais (ressurgidas ou inovadoras) dinâmicas políticas, económicas, até diplomáticas, mesmo culturais, que encarnam ou divulgam o tal “projecto colonial” português nesta década. Mas decerto que em alguns “campos” intelectuais e campi brasileiros muitos gostaram da atoarda falsária.
Finalmente, para acabar o seu bem sucedido 2025, a escritora Lídia Jorge associou-se à campanha de recuperação de Boaventura Sousa Santos, o “abissal” vulto de alguma “esquerda” alterglobalista, um acto inqualificável.
Todos estes meneios ideológicos, todas estas atitudes, são remuneradas. Como corolário desta fiada de indecências há meses a decana recebeu o Prémio Pessoa. E agora o Camões. Ou seja, as instituições, neste mesmo imediato ano, a aprestarem-se a sufragar e consagrar a demagogia. E a vilania.
Mais vale ver o Mundial…
(Postal na categoria “O Clérigo Mouco”).

