O "Odisseia" de Nolan
Volta e meia surge um filme americano sobre a "Antiguidade", integrando aquele género dito "épico" ou o subgénero "bíblico". À maioria o tempo torna-os ridículos mas muitos comparecem logo assim à (ant)estreia. E, como é normal, quase todos se restringem a reflectir a época em que foram feitos e não tanto um imaginado passado, nem sequer a esse refractando para além das vestes e dos cenários (se tivermos boa vontade…) - caso contrário os espectadores não acorreriam o suficiente para pagar as "super-produções" de "Hollywood".
Alguns são verdadeiras pepineiras (como dantes se dizia) - o afamado "Gladiador" (1º, pois o 2º nem vi) é insuportável de piroso, mesmo sendo competentes as cenas de pancadaria. Muitos são apenas pungentes subprodutos, por mais nomes caros e célebres que transportem no elenco ("Tróia" ou "Alexandre", para exemplos de XXI). Tantos outros nem merecem a curiosidade do telespectador vespertino.
Claro que há excepções. Por exemplo, “A Queda do Império Romano”, devido à divindade Sofia Loren. Ou, bem acima, o "Spartacus" de Fast/Trumbo, Kubrick e - acima de tudo - Kirk Douglas, por mais peça anti-Trump, perdão, anti-McCarthy que fosse, sobreviveu ao tempo, ainda justifica ser visto. Ou, muito da minha preferência, este "Júlio César" do grande Mankiewicz - talvez beneficiando do guião original não ser mau de todo.
Agora aparece um "Odisseia". Não me levará ao cinema. É de Christopher Nolan, que tantos elogiam. Não sou cinéfilo, deste realizador lembro-me de ter visto apenas 3 filmes (talvez mais algum em sonolentas noites televisivas, mas não me recordo): um desinteressante "Dunkirk", um ainda mais desinteressante "Oppenheimer" (que fez as pessoas "atiraram-se para o chão" decerto por razões atómicas). E o "ficção científica" "Interstellar", muito valorizado pela actuação da simpática Anne Hathaway, a qual mesmo não sendo a Julia Roberts cai sempre bem.
Entretanto leio várias referências a este "Odisseia". Está a ter um grande sucesso comercial. E a causar polémica - o que decerto aumenta as receitas de bilheteira. Pois o britânico Nolan “animou” o filme colocando Lupita N'yongo, uma actriz negra, interpretando Helena de Tróia. Há quem resmungue contra isso. E muitos respondem invectivando de "racistas" os desgostosos. No Facebook leio que até Frederico Lourenço - “homérico” tradutor de Homero e de bem mais, que é alguém a quem devemos não só respeito mas também amor, de gratidão feito dado o tanto que nos tem proporcionado, e que já devia ter sido cumulado das honrarias estatais disponíveis - subscreve essa “tese”.
A priori, não vejo qualquer razão para que uma queniano-mexicana não represente uma figura mítica grega. Nem tendo ela uma cor de pele (uma “raça” como tantos insistem em bolçar) pouco usual entre os gregos antigos (e modernos). Explico-me. O western da minha vida - pois vi-o no cinema de São Martinho do Porto quando tinha apenas oito anos e impressionou-me para sempre - é o “Os Sete Magníficos”. Só uma década depois soube que Sturges fizera uma versão do japonês “Os Sete Samurais” de Kurosawa. Ora se para um europeu distraído Yul Brynner podia aparecer com fisionomia algo “oriental” já Steve McQueen ou Charles Bronson nem tanto. Isso não apoucou o filme ou a sua legitimidade. Mais uma década passou e vi o melhor western (filme?) de sempre, “Unforgiven”, no qual Clint (a Encarnação da Razão) se fez associar a Morgan Freeman, rompendo com os velhos detalhes fenotípicos do cânone daquele género. Mais uma vez, ninguém terá contestado a pertinência da escolha. E em ambos os casos, tão diferentes, ninguém terá gritado “apropriação cultural”.
Já neste filme “Odisseia”, décadas passadas, surge a polémica. Por duas razões. Uma é subliminar. Não sou erudito, li o “meu Homero” (como sói dizer-se) à minha maneira. “Ilíada” e “Odisseia” têm muito que se lhe diga mas no seu cerne são dois tratados sobre a questão fundamental da vida social, a ética das relações de casamento. Não das relações conjugais (sentimentos e sensações) mas sobre aquilo que se dizia “troca de mulheres” - antes do feminismo superficial ter desembestado contra a expressão.
O “Odisseia” é sobre a ética do alembamento (lobolo, como se diz em Moçambique), das prestações matrimoniais - em algumas épocas gregas consistiam no que o homem e seu grupo tinham de dar à mulher e seu grupo. A trama é conhecida, a indecência dos pretendentes a Penélope, os quais não só não ofereciam o devido como abusavam dos bens do grupo onde ela casara. E, lateralmente mas porque o sucesso do filme decerto enfatizará uma “ulissomania”, convirá amansar a filiação dos espectadores e denunciar a personagem.
Pois os gregos inventaram a jurisprudência de fundamento psicanalítico, tornando inimputáveis os actos agressivos que justificavam como provocados por umas putativas “fúrias” intempestivas. E nisso há milénios que Ulisses se escapa do julgamento popular ao hediondo crime que cometeu. Pois, hipócrita, aceitara o verdadeiro conselho que lhe dera o pródigo e benevolente Alcínoo: “Nada há de melhor em tudo que a justa medida” (canto VII). Mas depois, quando decidiu matar aqueles malandros todos - uma decisão respeitável -, não se coibiu de o fazer também ao bom Liodes, um ponderado candidato à aparente viúva Penélope, esse a que “só a ele repugnavam os excessos, por causa dos quais censurava todos os pretendentes”, aos quais aconselhara a irem “fazer a corte a outra das mulheres de belos vestidos,/ oferecendo presentes nupciais, então deverá Penélope desposar / quem mais oferecer e quem se lhe afigurar o noivo destinado".” (canto XXI) Um tipo decente, esse Liodes, vilmente assassinado pelo “herói”.
E a “Ilíada” centra-se no problema do “rapto de mulheres”, o “casamento por rapto”. O mariola troiano Páris raptou a mulher errada, pois casada com um tipo rijo, rico, com parentes e amigos, que a foi recuperar. A ilegitimidade do rapto de mulheres é tão expressa na epopeia que Helena, a raptada, se torna um modelo da beleza (feminina) grega. Um arquétipo. E Nolan representa agora esse arquétipo através de uma mulher negra. É normal - não é “bom”, não é “justo”, não é “correcto”, é normal - que aqueles que se imaginem herdeiros do legado grego e dos seus arquétipos se espantem, a tal sensação subliminar. Uns resmungam, outros (como eu) percebem que é um bom truque comercial, outros “acham o máximo” por aparência ideológica, e dizem-no, um pouco em falsete se o conseguirem.
A outra razão não é nada subliminar, é mesmo explícita. Política. Pois o que o britânico Nolan faz numa produção norte-americana é aquilo que se ao invés - e particularmente nesses dois países - vem sendo criticado, denunciado, impedido. Todos o sabem, a vaga dita “acordada” (o wokismo) quer impedir a representação dos grupos ditos “racializados” e/ou “vitimizados” por gente que não seja pertencente a essas propaladas “identidades”. Uma personagem negra requer actores negros, tal como uma homossexual também requer actores desse “género”. Uma realidade desapossada requer um locutor (escritor/artista/ensaísta) “desapossado”, um texto de alguém “identitário” requer um tradutor “identitário”, etc.
Ocorre-me, pois tenho-o à minha frente para releitura, que se algum realizador português quisesse fazer uma espécie de “Há Lodo no Cais” usando literalmente o “Os Pedaços de Madeira de Deus” de Sembène Ousmane, e decidisse fazê-lo com actores portugueses (brancos), rodeados de figurantes portugueses (brancos), seria trucidado.
E é esta disparidade actual que irrita, de facto um paternalismo de cariz racista. Não tanto como este tipo de filmes “históricos”, tradicionalmente medíocres, plásticos. Mas ainda assim, irrita bastante. E haverá, decerto, quem considere ser racista este meu texto. É o “anti-racismo” de sofá, de meneios feito.
ADENDA:
Ontem (acima) aflorei esta polémica, devida ao realizador ter escolhido uma actriz negra para representar o arquétipo Helena de Tróia. Algo mais do que aceitável - até podiam ser todos negros, qual o problema? Pois não só Helena de Tróia não existiu como (qualquer) representação não exige similitudes de aparência de um realismo mimético (”Ran” de Kurosawa é o “Rei Lear” de Shakespeare e a rapaziada pró-CHEGA não anda para aí aos gritos com isso). Ou seja, Nolan tem toda a legitimidade para escolher participantes para o filme que não correspondam à tradicional imagem que temos sobre a Antiguidade Clássica, Helénica. E os protestos não têm cabimento.
Um amigo meu leu este postal. E logo me enviou um curioso texto. O qual apresenta um facto interessante sobre o filme. O cão escolhido para representar Argos, o fiel companheiro de Ulisses, aquele que reconhece o envelhecido globe-trotter aquando este aporta a Ítaca, é um podengo português. Escolhido porque esta raça (sim, para os cães “raça” é um conceito com substância real, diferentemente do que acontece sobre os homens, no qual não tem qualquer fundamentação biológica. Nem cultural..) já existia na Antiguidade homérica e naquela região.
Atente-se bem no paradoxo: para representar os cães há um cuidadoso cuidado “realista”. Mas para os homens até se faz gala em recusá-lo. Mais depressa se apanha um mariola demagogo do que um portador de deficiência crural...
Postal colocado nas séries “O Clérigo Mouco” e “Cinema”.

