No Camões a exposição fotográfica "Senda Índica", que Pedro Sá da Bandeira dedica a Moçambique
No passado 18 de Setembro apresentei o meu livro Sentido Obrigatório, acoplado à inauguração da exposição fotográfica Senda Índica que o Pedro Sá da Bandeira dedica a Moçambique, e a qual é visitável até ao próximo dia 2 de Outubro na galeria da sede do Camões, sita exactamente no Marquês de Pombal (anunciara-a aqui).
Para a sessão fiz um “improviso escrito” - como sempre dizia o meu saudoso amigo Aventino Teixeira, que nisso exercia o seu constante sarcasmo -, onde ambicionava legitimar o meu livro. Mas no momento da apresentação - algo inebriado pela, até inesperada, enorme (!, enorme mesmo!) quantidade de amigos que ali afluíram - esqueci-me das minhas coisas e pus-me a falar das fotografias do Pedro, e até a apontá-las…
Do que me lembro desse verdadeiro improviso que ali perorei - e do que mais gostaria de ter dito - componho-o agora assim. E logo abaixo reproduzo o belo texto que a excelente Graça Gonçalves Pereira - a nossa sempre Cônsul, cargo que exerceu de modo brilhante em Maputo - escreveu para “folha de sala” da exposição do Pedro. (E para que se conheça melhor o Pedro, junto-lhe ainda, no sopé do postal, uma entrevista que ele deu a um podcast colombiano quando apresentou a sua “Deriva Arrumada” em Cartagena).
“Improviso verdadeiro”,
Tenho de salientar a minha gratidão para com o Pedro Sá da Bandeira. Pois ao ter decidido associar a inauguração da sua exposição fotográfica sobre Moçambique, esta bela Senda Índica, não só comigo ombreia como reboca a apresentação deste meu livro Sentido Obrigatório.
Refiro esse rebocar não apenas por reforçar a visibilidade desta sessão, nesta nossa congregação de amigos que hoje acontece. Mas pelo percurso que vamos tendo juntos, mesmo que amiúde apartados pelas geografias. O Pedro é mais que meu amigo, é meu compadre - a sua Leonor (que tanto trabalhou para esta sessão) e a minha Carolina medrando juntas desde Maputo, o seu António um pouco mais novo… Mas mais ainda significativo é o facto de comungarmos sensibilidades intelectuais. As quais aqui abordo, sem com isso me atrever a pretensões de crítico fotográfico.
O Pedro viveu três entusiasmados e trabalhosos anos em Moçambique, tornando-se ali exemplo de inserção profissional e pessoal. Eu dezoito. E por essa diferença de tempo de imersão tanto me surpreendeu a tal nossa similitude de olhares - porventura isso será vantagem do seu instrumento, a máquina fotográfica, que o afasta dos tormentosos labirintos teóricos que a nós, os das “ciências sociais”, tanto nos atrapalham. E, decerto, por seguir ele totalmente desprovido da ambição de ascender aos púlpitos, essa que tanto (nos) envenena. E deturpa.
Ele é um fotorrepórter, não procura a dita “estética” - a paisagística, natural ou humana - muito menos a tão habitual (e até mesmo malvada) “estética da pobreza”, afastando-se do mero “belo”, grandiloquente que este minta ser ou até mesmo apetitoso às paredes de galerias.
Especializou-se na recolecção (ou seja, na verdadeira construção) do momento, do episódio, esse que denota o conjunto de processos envolvidos, a vida. Para quem o queira e/ou possa interpretar. Mas - e é esse o arcaboiço “teórico” da sua máquina - muito mais do que isso, pois o que o Pedro capta assume, tantas vezes, um cariz profético. Dado que ele, nesses vislumbres, mostra - através da tal construção, feita não através de intrusão encenadora mas por observação empática - o futuro que impregna este esquivo presente.
Aponto-o aqui, a esse sadabandeirístico teor profético, para o sublinhar aos amigos lisboetas, menos ou nada conhecedores do Moçambique que ele enuncia nas suas fotografias, assim menos capazes de a estas interpretarem, àqueles augúrios reconhecerem.
Dou meros exemplos, sem ser exaustivo para não enfadar: o ar mesmo maroto do transportador da imagem apeada do presidente Guebuza; o “China em África” que ele logo detectou à chegada numa vulgar carruagem de comboio - bem antes dos ensaios e proclamações políticas sobre tal assunto…
Ou o delicioso tríptico com pastor e crentes “ma”ziones, exemplo - que ele captou também logo à chegada ao país (2006) - da enorme expansão social do pentecostalismo e correlato evangelismo, fenómeno que tanto admirou (e atrapalhou) muitos intelectuais neste último ano político… Ou o magistral quase bíblico “César e Deus”, com o sacerdote (que tantos insistem em reduzir a “curandeiro”) invocando o(s) Deus(es) sob a tutela de César (Chissano), enquanto nessa mescla o seu (induzido?) movimento pedonal anuncia o único rumo possível de futuro (o bebé).
E esta quase críptica “Fátima” - imagem aparentemente “lisa” mas que tanto condensa. É Caia, local onde por batelão se atravessava o Zambeze, rio assim por décadas mantido fronteira natural no país, pois este ainda desprovido de ligação rodoviária directa entre os simbólicos rios do Norte (Rovuma) e do Sul (Maputo). E onde se construía então, e finalmente, a ponte - essa que veio a ser nomeada Armando Emílio Guebuza mas à qual o povo (esse “que tudo sabe”) logo denominou Ponte da Unidade Nacional.
Ao ver a fotografia perguntei-lhe, sem pudor, “encenaste-a?”. Ao que me disse, no seu típico sorriso perspicaz: “não, encontrei assim…”. A “Fátima”, comerciante (talvez de si-mesma, avento), esperando clientela naquele local de tantas e longas pernoitas, transeuntes aguardando lugares na azáfama do batelão diurno. A seu lado, até quase esconso, um vasilhame já histórico, de esvaziado: uma garrafa da Manica (a cerveja da Beira), outra garrafa de 2M (a cerveja de Maputo). A Unidade Nacional…
E sobre todas as outras poderíamos conversar, deliciando-nos nos seus múltiplos sentidos. Por tudo isso muito gostaria eu - pois sei-o absolutamente pertinente - que esta Senda Índica viajasse. Itinerasse, pelo menos, por Moçambique. E nisso logo me lembro dos centros culturais sobre os quais tive responsabilidade (em Maputo e na Beira), mas também por outras paragens - por exemplo em Quelimane, onde recentemente se fundou a Biblioteca e Centro de Documentação José Capela, esse que foi mítico conselheiro cultural português no país e seu fundamental historiador. Mais que não fosse para mostrar, reafirmar, por lá que por cá há gente que olha… Alguns!
(E também fico à espera de que tu, Pedro, nos apresentes a vasta exposição andina que já tens. Haja… Lisboa para isso)
Exposição de fotografia “Senda Índica”, de Pedro Sá da Bandeira
Texto para Folha de Sala, de Graça Gonçalves Pereira
“África é uma terra estranha. Não somos nós que a habitamos. É ela que nos habita” (personagem europeia do livro “A cegueira do Rio”, de Mia Couto)
Coincidiu temporalmente a minha permanência em Moçambique com a do Pedro Sá da Bandeira. Com muito gosto, por isso, aceitei o desafio de compilar umas palavras a propósito da sua exposição “Senda Índica”, “habitados” por África que fomos na mesma época. E cada época é isso mesmo, uma época, mas insere-se num devir que a transcende e situa.
Pelas funções que desempenhava ao serviço da Lusa, o fotógrafo viajou extensamente pelo país. Fotografias captam por isso muito mais do que o universo da cidade de Maputo, refletem a diversidade da malha de que Moçambique é feito.
Moçambique é uma terra extraordinária que a todos toca. De paisagens deslumbrantes e de gente com sabedoria ancestral, sofrida mas com esperança, de uma grande resiliência, afetada regularmente por catástrofes naturais mas que se auto-supera em condições muito difíceis. Como dizia um personagem do universo de um livro moçambicano, “A coragem acontece quando o medo chega atrasado”.
É um país muito a cores, de que fazem parte as capulanas garridas com desenhos e motivos infinitos. E azul e verde, do mar e da terra.
Mas o preto e branco que Pedro Sá da Bandeira utiliza - e em geral todos os grandes fotógrafos - capta a essência. Como acontece com os consagrados de Moçambique, a começar no Ricardo Rangel, depois a Moira Forjaz (que fundou a Associação Moçambicana de Fotografia) e o José Cabral, e a continuar hoje com o Mário Macilau, Filipe Branquinho e Mauro Pinto (que teve já um pémio BES), estes com carreira internacional e cuja obra já tivemos oportunidade de fruir cá em Portugal.
Pedro Sá da Bandeira terá milhares de fotografias de Moçambique, um dia bem gostaríamos de as ver todas ou pelo menos ver uma mais que necessária retrospetiva mais alargada, que faria todo o sentido. Vem-nos à memória uma delas, fotografando o grande artista plástico moçambicano Shikhane, que foi contra capa de um pequeno catálogo de uma exposição sobre aquele artista no Consulado Geral de Portugal em Maputo, em Novembro de 2011 ( a 1ª realizada depois da sua morte - “Na arte é necessário aventurar”). É uma fotografia extraordinária.
Ao lado da fotografia de Shikhani de Pedro Sá da Bandeira, constava, nesse pequeno catálogo, um pequeno texto que venho lembrar, por refletir poderosa e concentradamente matéria-prima do cadinho que é Moçambique e que Pedro Sá da Bandeira captou. Acontecendo que, por feliz coincidência, esse texto é da autoria de José Teixeira, que hoje aqui lança também um livro e a quem faço vénia pelo seu alargadíssimo conhecimento sobre Moçambique. Esse texto (retirado de artigo mais completo publicado no semanário Sol um mês antes) rezava assim, sobre o Shikhani:
“Um cosmo pré colombiano, passei a dizer, para tentar expressar a sua radical originalidade, denso, abissal, labiríntico, imenso, um frenesim de sentidos. Esse das esculturas excêntricas, disformes, desordenando a ordem humana dos constantes labirintos, do doloroso despojamento, naquelas frenéticas inconclusões disfarçadas de meros passeios geométricos”.
A fotografia de Pedro Sá da Bandeira é também uma fotografia que nos interroga, ficamos com vontade de saber mais sobre a sua proveniência, história e significado. E sobre o país que retrata. Um país de continente e ilhas, “as ilhas são como as pessoas, querem existir por si mesmas mas receiam a lonjura“. Banhado pelo Oceano Indico, oceano que Fernando Pessoa/Álvaro de Campos disse, na Ode Maritima, ser o mais misterioso dos oceanos todos. Consideram os moçambicanos ser Moçambique a pérola do Indico. Material de reflexão e conjugação.
Sempre gostei de interseções, pelo potencial de enriquecimento que encerram e pelo alargamento de interpretações e ângulos de visão que propiciam. Promovi em Maputo uma exposição de fotografia sobre Portugal visto por um estrangeiro. E um par de outras de artistas plásticos, incluindo portugueses que se cruzaram com Moçambique e de moçambicanos que se cruzaram com outros países. Eu própria expus em Moçambique as fotografias que lá captei. Neste momento está em Lisboa uma exposição sobre a forma como fotógrafos estrangeiros viram a revolução de 25 de abril, há 50 anos.
Todos olhares que se complementam, na observação plural de uma determinada realidade.
Não sou eu que descrevo, eu sou a tela, dizia Fernando Pessoa/Álvaro de Campos. Não resisto a citar um paralelo poema de Stewart Sukuma, cantor e compositor moçambicano que escreveu o livro de poesia “O alfaiate e a arte de costurar o amor (e um país) :
Eu confesso / Nunca escrevi estórias / Elas estavam ali paradas a sorrir / À espera que alguém as contasse / Eu juro, xicuembo xa Nhaca* / Não sou culpado de nada / Elas estavam ali paradas a sorrir / À espera que alguém as levasse / Olhei à volta e nada, ninguém por perto / Depois foi só abrir a mão / E jorraram palavras gritando / Viva a liberdade! / Viva a liberdade!
* xicuembo xa Nhaca é uma forma dos Nhaca (tribo) jurarem. A tradução literal para Português seria Deus de Nhaca, mas o sentido não é esse. O sentido é juro prla alma (ou espirito) dos Nhaca,
Esta exposição de Pedro Sá da Bandeira, e também o livro de José Teixeira, fazem parte de um património de interseções sobre Moçambique, que só ganha em crescer. Só posso incentivar a que outras criações floresçam e sejam apropriadas pelo publico, sendo que o Instituto Camões – que saúdo – corporizaria um dos sítios de excelência para concentrar mostras desse património cruzado (artistico, literário, etc) referente aos países da CPLP.
Graça Gonçalves Pereira, Cônsul-Geral de Portugal em Maputo, 2008- 2012
Junto uma entrevista do Pedro Sá da Bandeira ao podcast colombiano “Foto e Parla” - acedendo aporta-se, se se preferir, na versão vídeo. A qual foi realizada aquando da sua exposição “Deriva Arrumada”, apresentada no Museu de Arte Moderna Enrique Grau, em Cartagena, em Outubro de 2024.
Então o Pedro fez-me o favor de me encomendar um texto para a “folha de sala” dessa sua exposição. Ficou assim:
Deriva Arrumada
Pedro Sá da Bandeira (Lisboa, 1970) sempre se diz fotojornalista, sua situação profissional mas, e acima de tudo, condição da sua visão. Iniciou-se no prestigiado diário desportivo “Record”. Durante uma década ladeou a época da globalização do futebol português, correu a Europa e até alhures, reportando encontros e seus artistas. No que burilou as lentes, aguçou o olhar, desapegando-se dos grandes planos, tácticos ou monumentais, até das celebridades. E da paixão pelo jogo retirando o primado da finta enleante, do requebro mariola, do oxímoro vitorioso, até o do engan(h)o, nisso aficionando-se ao agir “de rua”. Esse atrevido, pé-descalço mesmo, em busca de um qualquer golo, seja esse um breve conforto, até mesmo a paz. Ou apenas o sobreviver…
Depois, pois romântico - como tanto o exsuda nas fotografias -, por amor da sua vida fez deriva, andarilho mundo afora. Primeiro o gigante norte-americano, agora o gigante colombiano, que calcorreia em frenesim apaixonado. Antes defrontara a agreste secura da imensa África do Sul. E o bulício encantatório de Moçambique, país que conheceu e fotografou como tão poucos o haviam feito. Mas sempre retornando a Portugal, nessa paixão pelo país, imorredoira mas desalentada, que nos é tão típica.
É dessa sua rota expatriada, já de um quarto de século, que nos traz agora esta retrospectiva “Deriva Arrumada”. Desde o nosso Atlântico partido, em demanda de “mares já tão navegados” – como diria Camões se fosse hoje –, mas daqui nunca apartado, na carinhosa ironia com que desvenda o novo Portugal que emerge, lampejos de um país-mundo fraterno em que crê, despojado de falsos irredutíveis. E sempre dotado da sublime curiosidade, pois disponível para atentar, nesses tantos outros recantos olhados, à plêiade de “prodígios espantos maravilhas” “pérolas” e “furtivos animais”. Mas, imensamente mais do que isso, capaz de com as suas câmaras fotográficas – essas que lhe são já ombros, de tanto neles habitarem – ouvir dos homens do mundo o “fundo som das suas falas”.
Segue assim com mente e alma indutiva, em busca dos breves momentos, esboços de vida, nisso enquadrando o aparente desenquadrado, captando o que nos é geral, humano. Futuro. Nisso meu colega, irmão, antropólogo, reclamo. É este o seu rumo, o de um homem livre e desapegado, daqueles que podem culminar, como os louvou a nossa Enorme poetisa Sophia, “As ordens que levava não cumpri / E assim contando tudo quanto vi / Não sei se tudo errei ou descobri”. Por isso… arrumado, consigo mesmo.






