Messi ou Ronaldo?, no Mpumalanga
Messi ou Ronaldo?
(Agora que Messi se aproxima do segundo título mundial - e espero que assim seja, divino que é - aqui reproduzo um postal. Escrito em Outubro de 2013. Tempos mais felizes, e também pela recordação dessa felicidade rotineira o coloquei nas memórias das minhas andanças, aquele livro “Torna-Viagem” - o tal que só se vendia, ou até mesmo vende se alguém ainda interessado, por encomenda [através desta ligação]):
À saída de Nelspruit não paro nos semáforos desligados, que quando assim funcionam como sinal de “stop”, pois nenhum carro se avistava no cruzamento. E logo dois policias saltam à estrada, mandando‑me parar. “Estou tramado!”, resmungo, antevendo os rands da multa e o atraso na viagem. Desculpo‑me, explico‑me, eles impávidos. Claro que viram a matrícula moçambicana, e tão habituados estão ao tráfego inter‑fronteiras, mas perguntam‑me para onde vamos (“Maputo”, respondo), de onde somos (“portugueses”, digo‑lhes), se viemos às compras. Que não, esmiúço, em busca de hipotética solidariedade, que ali vim para trazer a miúda ao (orto)dentista, a Carolina a comprová‑lo no banco traseiro, com o aparelho dentário tão brilhante, acabado de calibrar na visita mensal. Um deles (suazi? tsonga? sotho?, não lhes consigo destrinçar a origem), inclina‑se sobre a minha janela, quase enfiando a cabeça no carro e pergunta “how are you, sissi (maninha)?” e assim percebo que não pagarei multa. Depois diz‑me “se você é português vou‑lhe fazer uma pergunta” e eu logo que sim, dando‑lhe um sorriso prestável, antevendo uma qualquer dúvida sobre ares ou gentes de Moçambique. Mas afinal “Qual é o melhor, Ronaldo ou Messi?”. Eu rio‑me, num “Ah, meu amigo, são ambos excepcionais, diferentes mas excepcionais”, enfatizo, mas ele insiste, “mas qual é o melhor?”.
“Ok”, e enceno‑me, olhando à volta, “só vocês é que me ouvem, assim posso falar, sou português mas o maior é Messi”, e estou a idolatrar o jongleur, o driblador dono da bola, alegria do povo, nós‑todos miúdos de rua. “Não, você está errado” riposta ele (ndebele? zulu? xhosa?, não lhe consigo destrinçar a origem), “Ronaldo é o melhor. Messi nasceu assim, Ronaldo é trabalho, muito trabalho!”. Ri‑se, riem‑se, rimo‑nos, e conclui num “podem ir”. Avanço pela N4 e sorrio a este afinal meu espelho, apatetado europeu (armado em) intelectual com prosápias desenvolvimentistas, a levar uma lição de ética de trabalho de uma pequena autoridade (formal) africana.
(Maputo, Outubro 2013).
Postal colocado nas categorias Memórias e Meus Livros.

