Gazeta 5: tempestades, homenagens, eleições e mortes
Esta é uma Gazeta mais espaçada, com assuntos em que reparei desde finais de Janeiro: as intempéries que assaltaram o país, homenagens, mortes acontecidas, como decorrem as nossas eleições no âmbito dos nossos emigrantes em Moçambique e Angola. E junto alguns textos sobre as presidenciais de amanhã, alguns dos quais colocara no meu mural do Facebook ou no colectivo Delito de Opinião. Nisso este postal fica extenso em demasia para ser lido apenas através do correio electrónico, convidando os subscritores (que recebem via e-mail estes textos) interessados a virem até aqui…
(Avisei que os blogs na plataforma SAPO serão apagados. Ainda assim continuo a deixar as ligações para textos ali publicados. Mais tarde, quando os blogs referidos forem transferidos para outras plataformas tentarei actualizar todas as ligações que coloco.)
(Quem tiver curiosidade pode aceder directamente às Gazetas anteriores nesta secção)
Os Neo-Bustos
Um amigo avisou-me que em Benfica no próximo 12 de Fevereiro será inaugurado este mural de homenagem aos Heróis do Mar, de autoria de Francisco Camilo.
Não gosto deste tipo de “arte urbana” - como agora se apresenta o que antes se dizia “street art”, a qual sempre considerei como apenas “street curio”. E já resmunguei com alguns dislates (ideológicos e não só) com que vão povoando Lisboa. No rumo figurativo destas “intervenções” vejo as versões actuais dessas estatuetas que abundam nas cidades e vilas portuguesas - de facto recônditas pois vão-se tornando invisíveis aos munícipes -, dedicadas a invocar vultos já tendencialmente incógnitos pois da “lei da morte” afinal “(não) se vão libertando”. Ou seja, estas novas obras são uns verdadeiros neo-bustos, com a característica peculiar - se positiva se negativa que cada um decida da sua preferência - de serem mais perecíveis.
Mas neste caso suspendo o meu pigarreio. Pois, se neste rumo de evocações laudatórias, parece-me muito apropriada a homenagem aos “Heróis"…”, um grupo que na década de 1980 teve enorme importância cultural, até maior do que a musical, naquilo de terem exigido e proporcionado o descomplexo nacional, o reencontro do país consigo próprio e a sua celebração, passada que fora a era do país pária.
E desejo que esta inauguração de mural possa ser preâmbulo de uma muito devida homenagem individual a Pedro Ayres de Magalhães - e isto sem qualquer demérito para os seus parceiros nos “Heróis do Mar”. Escrevi-o há anos, quando ele se tornou sexagenário: “é o homem da nossa geração que maior impacto cultural teve no país. Tem tido. A alumiar.” Homem reservado, independente, talvez até altivo, Magalhães segue sem uma corte, da qual desnecessita. Mas também sem a reverência pública que lhe é devida. E só há poucos meses, lendo um já velho livro que abandonara nas estantes sem o encetar, vi expressa uma visão similar: Pedro Rolo Duarte (no “Noites em Branco”, Oficina do Livro, 1999, pp. 181-183, reproduzindo um seu texto no “Diário de Notícias” de 1993) dizia o que me parece óbvio: “A importância de Pedro Ayres de Magalhães para a música portuguesa do pós-25 de Abril é idêntica à que teve José Afonso nas décadas de 60 e 70. Gostava que um dia alguém reconhecesse esse facto.” Eu sou mais radical do que foi - há três décadas - Rolo Duarte. Aqui mesmo escrevi há meses: “o português mais relevante - e não só na música - da minha geração é o Pedro Ayres de Magalhães, por razões que agora não desenvolvo mas sumarizo: na grandeza de si próprio, Homem que é, descomplexou este traste país. (…) Pois o Magalhães fez mais, foi português! E convocou-nos a nisso segui-lo, refez-nos.”
E neste país que tem a mania das arengas post-mortem, dos gemidos in memoriam, será adequado que - pelo menos neste caso - a gente se reúna em memórias, sensibilidades, análises, improvisos e até desgarradas, em amálgamas contraditórias que surjam, e sopesemos o que o Magalhães nos tem sido. Nos é. E o enfrentemos, em convívio intelectual, e evidentemente musical, com os nossos vieses… Pois ele o merece.
(Porque vem a propósito: a RTP tem disponível uma entrevista a Magalhães feita por Rolo Duarte em 1997, seccionada em três partes - 1, 2, 3.)
Tempestades e Eleições
(Fotografia de António Pedro Santos/LUSA, feita nas cercanias do Lis, que ficará simbólica das ocorrências neste Inverno)
Sempre me irritou o hábito de se atribuírem nomes próprios às tempestades, dizendo-as Joseph, Kristin, Leonardo, etc. De facto, é um resquício do pensamento “animista” - como antes se lhe chamava. Nisso de se atribuirem características humanas à Natureza circundante, assim entendendo-a - mesmo que só de modo inconsciente - como determinável pelas nossas acções. As de nós próprios e as dos nossos ancestrais, quantas vezes temidos como guardiões da ordem, atentos censores até vingativos, as tais “almas” que os “animistas” presumiam activas mundo afora.
Alguns dirão que hoje em dia ninguém crê que a “Kristin” que agora nos devastou seja a emanação de defuntos “cristãos” irados pelo nosso (aparente) racionalismo, ou uma avoenga despeitada por não a invocarmos em missas e com desperdícios nas campas. Ou mesmo uma bruxa viking saudosa das razias costeiras. Ou um “castigo divino” exarado pelo Omnipotente, Omnisciente e Omnipresente Uno.
Mas trato de algo diferente. De um modo de pensamento que restringe as intempéries a cadeias de causas-efeitos de estrito âmbito humano. É a tal irreflexão feiticista (isso do “animismo”), sempre obrigada a encontrar os bodes expiatórios, cuja imolação permita acalmar o futuro. É certo que, ao invés do que vigorava no passado, agora não se procura determinar o vizinho responsável, esse que invocou a ventania, a desgraça. Mas sim o vizinho responsável, o que não vedou a tal ventania. E nisso não se atentam nas condições materiais (“estruturais”, se se quiser) dos fenómenos, nos feixes multicausais a exigirem actuações complexas. E assim tantos (quase todos?) se satisfazem na demanda dos culpados a lapidar nos rossios, televisivos que sejam estes.
Nestes já longos dias parece que a administração pública titubeou - numa ineficiência similar à acontecida em outros recentes desastres. Porventura por falta de planificação central, decerto que por deficiente organização. E, quero crer, devido à má influência do (constante) clientelismo no preenchimento das chefias intermédias.
Também é evidente que o nosso governo meteu os pés pelas mãos ao enfrentar esta crise. Demonstrando um remanso prévio e um desnorte no momento, patente na atrapalhação executiva e comunicacional de vários ministros, até pungente em alguns casos. Com a evidente excepção de Maria de Graça Carvalho, a ministra do Ambiente, uma mulher desde há muito reconhecida como tendo grande gabarito, e que aparece assim como imerecendo estar acantonada nesta verdadeira “turma de repetentes”, agregada por Montenegro.
Ainda assim, e porque sem qualquer vontade de assistir a autos-de-fé, parece-me descabido o rumo do presidente da república. Já várias vezes resmunguei - e aqui me sumarizei - com o real populismo de Marcelo Rebelo de Sousa. E é óbvio que a histriónica personagem acolheu esta crise para fazer o seu “grand finale” presidencial, nisso não se coibindo de invectivar algumas instituições, num registo descabido. Para o momento e para o futuro. Sobre isso, o facilitismo (populista) do nosso PR, recomendo a leitura deste texto de Henrique Pereira dos Santos, tão apropriadamente chamado “Marcelo Ventura”.
(E, a latere, a imprensa não segue muito melhor: caso extremo, até inaceitável foi a actuação das estações televisivas CNN e TVI, a deturparem conscientemente a acção das Forças Armadas.)
Finalmente há dois pontos políticos que me surgem face a estas ocorrências e à atrapalhação estatal:
1) é-me evidente que se estas tempestades e cheias tivessem ocorrido umas semanas antes o Almirante Gouveia e Melo, devido ao seu prestígio, teria sido votado o suficiente para chegar à segunda volta e, depois, a presidente da República;
2) não me parece que estes acontecimentos reforcem a votação em André Ventura - porventura reforçarão a sua percentagem final, ao contribuirem para um aumento da abstenção, a qual será mais fácil aos apoiantes de um Seguro que aparece como “já eleito”. Mas decerto que a atrapalhação estatal e ministerial sedimentarão os queixumes contra a “bandalheira”, o grande mote do movimento do agora candidato presidencial.
Ou seja, para enfrentar este venturismo o necessário não é gritar “vêm aí os fascistas”. É só preciso… uma melhor organização estatal! Não será impossível. Mas para isso muito será necessário que os políticos saiam das suas bolhas… de interesses.
A Morte em Maputo
A semana passada aqui deixei o postal “O Assassinato em Maputo do Administrador do BCI”. Entretanto uma investigação complementar à morte de Pedro Ferraz dos Reis no Hotel Polana confirmou a tese de que acontecera um suicídio. É certo que a administração do português BPI expressa ainda o curial anseio de que a investigação sobre o acontecimento seja exaustiva.
Ainda assim, e dadas as conclusões já avançadas pela missão conjunta entre a polícia moçambicana e a portuguesa, considero que não nos cabe - pelo menos não me cabe a mim - especular sobre o assunto. Daí que tenha aposto esta adenda - que é também contrição - no postal em causa, mas também a colocando no meu mural no Facebook. E que aqui replico, para que os que me leram anteriormente fiquem cientes do acontecido:
A morte em Maputo, em pleno célebre Hotel Polana, do administrador do BCI, Pedro Ferraz dos Reis, nomeado pelo BPI português, provocou não só grande comoção. Mas também a suspeição sobre a tese de suicidio avançada pela polícia moçambicana, até pela celeridade com que foi apresentada. Suspeição que eu aqui ecoei e subscrevi. Entretanto a Judiciária e o Instituto de Medicina Legal de Portugal enviaram especialistas para acompanharem a ocorrência. E depois da sua investigação esses especialistas corroboram a ideia de que Ferraz dos Reis infelizmente se suicidou. Ficam os meus votos que a sua família tenha conforto moral
Quanto ao tanto que foi dito - e por mim também, nisso tendo perdido uma ocasião para estar calado - deixo esta citação: “De onde vem isso? Da mediocridade natural da espécie humana. Se não fosse esse o caso, se fôssemos essencialmente honestos, não teríamos outro fito, em qualquer debate, senão o de fazer surgir a verdade, sem cuidar se ela é conforme à opinião que anteriormente defendêramos ou à do adversário (...) cada um deveria simplesmente esforçar-se por não expressar senão juízos justos, o que deveria incitar a que se pensasse primeiro e se falasse depois. Mas, na maior parte dos homens, a vaidade inata faz-se acompanhar pela loquacidade... “ (Arthur Schopenhauer, A Arte de Ter Sempre Razão, Frenesi, 2007, tradução de Jorge P. Pires, pp. 22-23).
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E ainda sobre este caso. É excêntrico que passados cinco dias do comunicado da Polícia Judiciária e do Instituto de Medicina Legal, uma jornalista popularizada como Maria João Avillez vá até à muito vista SICNotícias reafirmar, sem qualquer dúvida, o assassinato do administrador bancário (a partir dos 16’30’’, no filme ao qual aqui deixo ligação). Ou Avillez sabe alguma coisa sobre o assunto que o público não sabe - e então deve a isso aludir. Ou nada sabe, e apenas perora. Eu julgo que apenas perora - como é constante nos omnicomentadores televisivos. Mas nisso, impiedosamente macula as instituições e a memória do morto. E, pior, incomoda a família enlutada.
Ainda Sobre Mamede
Após a sua morte deixei aqui uma homenagem ao campeão Fernando Mamede. Logo um leitor me informou de uma simpática nota biográfica que lhe fora dedicada há alguns anos. Para quem se interesse deixo a ligação a “Fernando Mamede: muito mais do que um desistente”, de António Araújo (Diário de Notícias, 26 de Novembro de 2023).
Sobre Imigrantes
“There’s Nothing I Enjoy More Than Acting In The Theater” - Ian McKellen extended interview, The Late Show with Stephen Colbert (5.2.2026)
Anteontem o grande Ian McKellen actuou no programa “Late Show” de Stephen Colbert. O actor (que representou Gandalf no “Senhor dos Anéis” - convém lembrar isso aos mais novos) foi excepcional na forma como escolheu e disse este monólogo, no qual em finais de XVI Shakespeare fez - com sustentável congruência - Thomas More discursar sobre “imigrantes”, numa peça com o seu nome. (Ver a partir dos 20’50’’).
Não acredito que a rapaziada mais pró-CHEGA, e seus similares alhures, seja sensível a este tipo de incursões - “intelectuais” escarrarão, mesmo os ilustres académicos e “altos quadros” que agora se acotovelam no “Observador” escrevendo patetices.
Ainda assim, e para tais gentes, contextualizo a obra: Shakespeare foi um autor que há uns séculos escreveu várias peças de teatro, que ainda vão sendo apresentadas de modo literal ou transformadas. E criou algumas cenas e frases que continuam a ser ditas. Por exemplo, as muito proferidas pelos adeptos do André: “algo está podre neste reino da bandalheira”, “ser ou não ser o Paquistão, eis a questão”. E se estivesse vivo decerto que seria também autor dos folhetins televisivos que a malta vai vendo, nos intervalos das entrevistas do André.
E Thomas More foi um intelectual (”argh!”, conceptualizarão os “indignados”). Muito atento e respeitador dos portugueses (”vá lá”, suspirarão os nacionalistas), tanto que até nos louvou através de uma sua célebre personagem literária, Rafael Hitlodeu. Foi também um muito importante político inglês. Sendo anacrónico (ou seja, pondo no passado as concepções de agora, coisa que está muito na moda) poderei dizer que More era um ordeiro social-democrata (”Maldito! Socialista”, muitos urrarão, “Comunista”, outros ulularão nos seus murais pessoais) ou talvez democrata-cristão, compungindo e indignado com as malevolentes impunidades das elites do regime (”afinal?!”, hesitarão os “justos” - nisso talvez dispondo-se a ouvir o monólogo de três minutos e legendado). E acabou decapitado, devido a ter optado por ser fiel à Santa Madre Igreja. Tendo depois sido canonizado, já em XX por Pio XI, um Papa insuspeito de simpatias “comunistas”, nada Francisco por assim dizer... Julgo que tudo isto poderá permitir que os adeptos de quem muito diz ir à missa vejam os três minutos (legendados, repito).
Quanto aos outros? Vede isto, McKellen é mesmo excepcional.Tal como o é o texto. De há 430 anos!!!!
(Para quem não tenha paciência para procurar o momento da representação no filme anterior - repito, está a partir dos 20’50’’ contando com uma breve introdução contextualizadora - deixo aqui uma outra apresentação, feita há dez anos)
Ian McKellen performs speech about immigrants by Shakespeare from Thomas More (23/4/2016)
Presidenciais: Fala com os Avós!
Esta semana já aqui explicitei o meu voto na segunda volta das presidenciais. Antes, alhures, fizera-o neste “Fala com os Avós”…
1. Não gosto do PS. Nada mesmo. E tenho muitas desconfianças do PSD. Não porque abomine a “social-democracia”, que é uma das componentes fundamentais das bastante virtuosas sociedades europeias - por mais que comunistas de várias extracções e suas histriónicas sequelas “pós/decoloniais” as queiram demonizar. Mas estas minhas aversões vêm do “saber de experiência feito”, do conhecimento de que PS (dominando em XXI) e PSD (antes) têm tendência para se transformarem em hidras tentaculares, obstáculos ao desenvolvimento.
Ainda assim, volta e meia voto nesses partidos e seus militantes. Fi-lo no PSD sob Passos Coelho. E em 2016, nas presidenciais que levaram o populista Rebelo de Sousa para Belém, votei num candidato socialista, Henrique Neto - o qual fora, salvo erro meu, o único socialista que se indignara com as tropelias de Sócrates (esse que ganhou o último congresso do PS a que compareceu com 97% de votos, numa moção capitaneada por .... António Costa). Agora, como já aqui disse, votarei Seguro. O qual esteve, é certo, calado durante o execrável binómio Sócrates&Costa. Mas daquilo estrategicamente afastado, (alguma) justiça lhe seja feita.
2. Entre os apoiantes do candidato Ventura reina o dichote que este regime (dito “bandalheira”) rebentou com o país durante estes 50 anos! Propagam-no pelas ruas e redes sociais.
Cotrim de Figueiredo fez uma boa campanha na passada “primeira volta”. Um dos seus bons trunfos foi aquilo de apelar aos jovens - entre os quais tinha bastante apoio - para falarem com os avós, sensibilizando os mais-velhos para as suas opções.
Consta que entre os apoiantes de Ventura e CHEGA há também muitos jovens. Conviria que também desta vez eles falassem com os avós. É certo que os velhos têm tendência para resmungarem “ah! no meu tempo é que era bom...”. Ainda assim será conveniente que os mais-novos, irritados com este rumo PS, se informem em casa, que os “avós” lhes contem como o país tanto melhorou durante a tal “bandalheira”: como se acabou uma guerra absurda (há uns senis que ainda gritam “traição”, mas é mero ignorante revanchismo), como se construiu um parque habitacional, como imenso melhoraram saúde pública, educação, o nível e as condições de vida... O país poderia ter-se desenvolvido mais? Claro, estagnou - principalmente em XXI. Mas falem com os avós, comparem como se vivia “no tempo deles”. E percebem da alarvidade desta gente que diz tudo está mal “desde há 50 anos”.
3. Tenho ligações digitais com pessoas do CHEGA. Uma é com uma médica que durante anos teve um simpático blog, de viagens e leituras. Agora é deputada da Assembleia da República. No seu mural de Facebook vi um “cartaz” que reza assim: “Os não-socialistas que votam Seguro (entre os quais eu, vulgar cidadão) não têm coluna vertebral”. Ou seja, a Senhora Doutora está a chamar-me invertebrado. Fico incomodado, pois não posso - no meu avatar cavalheiro - responder à letra à Senhora Doutora, e agora Deputada da República (as gentes do CHEGA gostam de dizer “da Nação” para se salarizarem). Mas depois acalmo-me, remeto o dichote da Senhora para as pirraças que pululam nos calores das disputas eleitorais.
E leio um pouco mais do seu mural. Para encontrar um filme falso, uma manipulação (tosca) de afirmações do popular Manuel Luís Goucha, apresentando-o como apoiante de CHEGA e Ventura, o que é falso como o próprio já veio denunciar. Enfim, uma aldrabice transmitida por uma deputada da Assembleia da República e também médica de um reputado grupo de saúde privada, exercendo ali naquela que os lisboetas chamam “zona oeste”. Um perfil politico e profissional de quem se esperaria um mínimo de responsabilidade. E decência.
A minha interrogação não é ad hominem. É outra: como é que as pessoas julgam combater uma dita “bandalheira” usando bandalheiras destas?
Adenda: no Delito de Opinião o meu amigo Pedro Correia publicou ontem o postal “Mentem, mentem, mentem”. No qual elenca várias aldrabices (o que os envergonhados chamam “fake news”) produzidas e disseminadas pelas gentes do CHEGA. Recentes falsidades em prol da candidatura de Ventura. As quais são provas de que esta gente não é frequentável! E é elegível por quem gosta de aldrabões.
O Meu Voto nas Presidenciais
(Outro postal que coloquei no meu mural do Facebook, explicando porque - apesar de tudo - votarei em Seguro).
Isto vai ser mais difícil do que pode parecer à primeira vista. Após a primeira volta das eleições presidenciais recebi uma enxurrada de mensagens. Várias de amigos (até íntimos) eleitores de Cotrim de Figueiredo e de Marques Mendes. Gentes que dedicam a Ventura epítetos peludos - que Senhoras da minha família me proíbem de ecoar. Mas que ainda assim clamam, em teclados e vozeares, “nunca votarei no Seguro”, “nunca votarei num PS”, enquanto (vejo-o nas videochamadas) espalham unguentos nas suas pustulentas escaras provocadas pelas socratites e costites, agora reacesas.
Procuro aconselhá-los, ser deles um “maître à penser”. Como é visível eu tenho grandes divergências políticas com António José Seguro - uma “imperial” nunca se deve beber com tanta espuma, muito menos recebê-la com tamanha expressão de apreço se apresentada nestas condições. É evidente que foi um funcionário público do nosso Estado extractivista que “tirou” esta cerveja..., prejudicando o utente, em qualidade de serviço e quantidade de satisfação.
Mas tenho similitudes ideológicas, que são as verdadeiramente cruciais. Pois Seguro, como é aqui notório, prefere a Super Bock à Sagres - essa que, nunca esquecer, nunca perdoar, fez um anúncio a gozar com o grande Rui Patrício. E a nossa decisão eleitoral deve seguir estas matérias de princípios fundamentais, de Valores. De quem estamos nós mais próximos ou menos distantes?
Eu nem hesito - apesar da espuma em excesso estou com a Super Bock. E com Seguro.
As Presidenciais e os Nossos Emigrantes em África
(Votação nos consulados em Moçambique na primeira volta das eleições presidenciais.)
(Votação nos consulados em Angola na primeira volta das eleições presidenciais.)
Quando há anos Bolsonaro foi eleito houve uma vaga xenófoba em Portugal. Jornalistas, políticos, intelectuais - todos autodefinidos como de “esquerda” - surgiram a clamar a inadmissibilidade de haver brasileiros cá residentes que votassem em Bolsonaro (o qual tivera uma boa votação entre esses nossos imigrantes). Entre outras aleivosias, uma autarca socialista pediu, sem rebuço, a expulsão dos brasileiros. Uma escritora e jornalista muito premiada teve o desplante de fotografar apoiantes do então presidente eleito e publicar essas imagens na internet. Como é consabido mais de metade dos eleitores brasileiros votaram então em Bolsonaro. Pouco importava a esses nossos “intelectuais” de “esquerda”, pois o que queriam era - como fez essa vil nossa escritora - “mostrar as caras dos fascistas”.
Irado com essa nossa gente, escrevi:
Lembrei-me disto, daquele abjecto rumo de letrados compatriotas, quando após a primeira volta destas eleições presidenciais li no Facebook vários textos de moçambicanos - alguns deles conhecidos literatos - vituperando os portugueses residentes naquele país por serem “fascistas”, “racistas”, xenófobos”, “privilegiados”, “salazaristas”, “colonialistas” e outros epítetos similares, dado que a “maioria” tinha votado em Ventura. Expressando assim a inadmissibilidade da sua permanência em Moçambique. Logo depois um amigo enviou-me um texto desse mesmo teor, mas ainda mais completo, publicado por um angolano.
Esse mais completo porque demonstrava o que os textos de moçambicanos apenas denotavam. Pois o angolano explicitava que estes “fascistas” e “racistas” eleitores de Ventura, a “comunidade portuguesa” residente, eram “revanchistas” “colonialistas” que se associavam à oposição angolana, considerando-os, de facto, uma espécie de “inimigo infiltrado”. Tal como - repito - isso era denotado nos textos moçambicanos.
Ou seja, a agressividade para com os portugueses residentes surgiu como uma forma evidente de ilegitimar as oposições nacionais. Para quem conheça aquelas realidades nacionais é logo evidente: a sanha anti-portuguesa é não só um feixe de elaborações demagógicas mas uma forma - já tradicional, após 50 de independências - de legitimação dos poderes instituídos. Essa explicitação da aversão ao “colono” é um argumento político perene. Mas cada vez menos eficiente, dado que o passar das décadas traz não só novas gerações que desconheceram a repressão colonial como porque, acima de tudo, estas enfrentam o que denominam como “colono preto”, os tais poderes autocráticos e, de facto, cleptocráticos - e os seus letrados, estes “intelectuais orgânicos”, agora em frenesim digital.
Os dados estatísticos que suportavam essas indignações com os portugueses - que tiveram larga disseminação via Facebook e Whatsapp - eram estes que acima coloco (e que recolhi nos próprios postais invectivadores, que os usavam como “prova provada”).
Convém atentar nos números: em Moçambique estão inscritos 8984 eleitores. Há, decerto, bastante mais cidadãos portugueses (serão cerca de 40 mil), mas apenas estes estão recenseados para exercerem os seus votos. Nestas eleições votaram apenas 8,88% dos inscritos, 798 indivíduos. O candidato André Ventura obteve 240 votos (30,19%). Cotrim 198 (24,9%), Seguro 163 (20,5%). Gouveia e Melo apenas 98 (12,33%) - julgo que prejudicado por não ter havido assembleia de voto em Quelimane, cidade onde nasceu, facto que lhe poderia ter feito ganhar alguns votos por simpatia. E Marques Mendes 62 votos (7,8%), seguindo-se os candidatos da esquerda mais radical que, conjuntamente, tiveram 29 votos. Além disso houve 5 cidadãos portugueses que se deslocaram aos consulados para votar Manuel João Vieira, o que é até notável.
Como causa - aparente - dessas invectivas estes letrados apresentaram os tais 240 cidadãos portugueses que optaram por votar em André Ventura. Quanto ao texto similar em Angola - país onde há muitos mais portugueses do que em Moçambique - a repulsa pelos portugueses assenta no facto de … 45 deles terem votado em Ventura!
Insisto, estes discursos não nascem de um desinformado raciocínio, incapaz de reflectir sobre as causas que - infelizmente - fizeram crescer em Portugal o eleitorado de Ventura e CHEGA. Ou seja, quais as razões dos “desfavorecidos” (como o manso jargão vigente diz) votarem contra o nosso poder instituído - a qual é realmente excêntrica a qualquer revanchismo colonial, como se recusam a ver estes locutores africanos de agora, pois centradas em matérias contemporâneas internas. É normal que o comum cidadão moçambicano ou angolano não reflicta sobre isso, não lhe será premente. E fica assim apenas com o eco dos estereótipos mais sonantes que por cá são veiculados.
Mais do que isso, estes textos moçambicanos, esta sanha “anti-tuga”, impensa que não há uma verdadeira comunidade” portuguesa naquele país - qual a similitude político-ideológica, até social, entre os velhos “maguerres” (os “brancos do mato”, os colonos rurais pobres que ficaram após a independência, agora provavelmente já quase todos desaparecidos), os remanescentes dos idos nos militantes tempos da cooperação, os pequenos empresários chegados na viragem do século ou altos quadros empresariais actuais, etc.? Tal como muito (até mais) heterogéneo será o contingente de portugueses sitos em Angola.
E também estas críticas não reflectem sobre as razões de serem tão diminutas as votações dos emigrantes portugueses (em Angola e em Moçambique, tal como em tantos outros países). Não são apenas as razões técnicas, que as há. Serão fundamentalmente por progressiva desinserção (um desamarrar) nos processos político-ideológicos portugueses - que não nas relações afectivas e até económicas com os locais de origem, em particular se rurais ou periurbanos, mais identitários. Nisso também de progressiva inserção existencial (e de expectativas, donde de preocupações políticas mesmo se vivendo como estrangeiros) nos locais/países de residência, de integração económica, social e até ideológica. Por vezes mesmo identitária. Vivendo esses processos em miríades de práticas e concepções, às vezes ilegais, às vezes ilegítimas, às vezes conflituais, mas na maioria dos casos apenas normais, naquilo da vida...
No fundo, na sua sanha impensante o que estes literatos austrais ecoam é a sua recusa de aceitar os evidentes fenómenos de inserção social, de relativa integração desses estrangeiros, nossos emigrantes. A coberto da legitimação dos seus regimes apenas ecoam, os tais “intelectuais”, um vil raciocínio xenófobo, sem aspas. Persecutório. Sem rodeios, mesmo racista. Em suma, fascista. Procurando acicatar ânimos.
Tal e qual os nossos - por isso lembro a sanha anti-brasileira que aqui emergiu há anos. Vêm-se todos como “intelectuais” e de “esquerda”. Progressistas de bela moral. Seguem, ufanos, no seu “comboio descendente”, “Uns dormindo, outros com sono,
E outros nem sim nem não”. E arrogantes, mesmo se na pobreza estremunhada.
E após amanhã, face aos resultados de uma eleição com apenas dois candidatos, decerto que naqueles locais (e noutros) Ventura terá maior percentagem - quiçá mesmo votantes. E eles virão de novo, na sua abjecção moral e miséria intelectual. Tentando legitimar-se no opróbrio lançado aos “outros”. Pois lá como cá, é gente da mesma laia.
A Virtude no PS
Já aqui o referi, há algum tempo (auto)publiquei um livro, “Sentido Obrigatório”, no qual juntei 30 textos sobre Moçambique (encomenda-se através desta ligação). Não captou grande interesse. Se é certo que houve grande festa na sua apresentação - colei-me à inaguração da exposição fotográfica do amigo Pedro Sá da Bandeira - a partir desse belo dia o livro vendeu quase nada. Mesmo tendo eu feito também uma edição em livro-electrónico, que evita os custos dos portes postais (acessível nesta ligação).
Mesmo assim nos tempos subsequentes ainda recebi algumas, escassas, encomendas de exemplares. Um desses casos foi o de uma amiga-digital de há longo tempo. Simpática, descolocou-se até a um café olivalense da minha preferência, e assim nos conhecemos, trocando algumas opiniões - em particular sobre o rumo de Moçambique, de onde a Senhora é oriunda. Foi uma conversa aprazível.
Passadas umas horas dela recebi uma mensagem telefónica. Dizia-me “esqueci-me de lhe perguntar qual a razão pela qual não gosta do Sérgio Sousa Pinto...”. Defendi-me, até para manter a postura bonacheirona que afivelara durante o nosso encontro, num qualquer “terei exagerado em dia de má disposição”.
Mas, de facto, Sérgio Sousa Pinto irrita-me. É certo que tem boa verve, até desenha, tem ar de quem sabe estar à mesa. E tem um pose de “desalinhado” - agora até fala no “Observador” (sendo por isso tão vituperado como há 40 anos eram os intelectuais comunistas quando escreviam no Expresso ou no O Jornal, a maldita “imprensa burguesa”, hoje dita “lixo mediático”). Pois deixa críticas “à esquerda” e até ao seu PS, fala com os liberais - até nos clubes de empresários... -, dá bordoadas nos esquerdistas (ficou justificadamente célebre a pancadaria que deu no melífluo Rui Tavares). E assim Sérgio Sousa Pinto simboliza para muitos a esperança num PS “civilizado”. Ou seja, não rapace, nada omnívoro. Frugal, por assim dizer... Nisso vem sedutor, até com laivos do “charme discreto” do “blasé”, esse que tanto agrada à burguesia, perdão, à classe média.
No fim-de-semana passado João Miguel Tavares publicou este artigo sobre Sérgio Sousa Pinto. Um vizinho que ainda compra o jornal da SONAE emprestou-me o seu exemplar para que fotografasse eu o texto. Fi-lo para o reproduzir, assim algo tardiamente respondendo à minha amiga-digital. Pois não gosto de Sérgio Sousa Pinto - mesmo que por vezes lhe “ache piada”, naquilo da boa verve -, dado que o homem é uma encenação que nos procura afirmar que ainda há algo de virtuoso no PS. Não há! Posso admitir que ainda sobrevivam alguns decanos, “seniores” dizem-nos agora, que se revêm e imaginam em Bad Münstereifel. Mas nisso apenas compõem um cenotáfio ideológico, moral se se quiser.
Mas no real actual, e que será futuro, o que naquele partido há é apenas isto, o que está esparramado no texto. Por mais ademanes retóricos que o homem tenha... “Canta bem mas não encanta”, esse Sérgio Sousa Pinto.
O Sucesso de André Ventura
(Face ao crescente sucesso do agora candidato presidencial André Ventura, decido reproduzir um texto meu “A Chuvada Eleitoral”, de 27.1.21, que me foi lembrado pelo Pedro Correia no Delito de Opinião. Pois resume não só o que dele penso mas também como penso serem as forças que o catapultam. E não mudei de ideias desde então.)
A chuvada eleitoral de domingo, com o sucesso do Prof. Ventura, demonstrou a pertinência da velha máxima “o que é preciso é que se fale, mesmo que seja ... bem”. Recordo o que já resmunguei: catapultado como “voz televisiva do Benfica” e, depois, “enfant terrible” de Loures, Ventura chegou aos 60 mil votos e foi resvés eleito deputado em 19. Breves minutos depois da sua eleição a então também nóvel deputação do Livre celebrou o seu sucesso eleitoral alcandorando-o a adversário fundamental, dando-lhe eco, sublinhando-o reforçando-o, como mera forma de se reclamar paladina do “antifascismo”. Forma de encapuçar a estreiteza da agenda política própria e, acima de tudo, de ocupar espaço à “esquerda”, onde o palanque legitimador do “antifascismo” vem sendo - e com legitimidade histórica, diga-se - ocupado pelo PCP e pelo PS. E de nisso também se apartar do BE, ao qual acabara de subtrair basto eleitorado e, também por esse novo estatuto “antifascista” reclamado, imensa atenção mediática. Pois a imprensa lisboeta, muito “gauchiste”, assumiu com frenesim este novo conflito entre unideputações, novidade bem mais apetecível do que os já monótonos acintes entre os “big five”.
Depois foi o que foi: Ventura soube afrontar os ideais dominantes da imprensa sem com isso a afastar; enquanto a disparatada Moreira a afastou de vez, não só pelo seu patético conflito com o “pós-stasiano” Tavares mas, acima de tudo, pelo dislate de chamar uma escolta policial para se proteger das perguntas da imprensa, arrogância - dela e do seu assessor dos saiotes - nunca vista na democracia portuguesa. Resultado: a imprensa democrática não lhe liga, condenando-a a um silêncio revelador da sua essência, mero apêndice de um PS tacticista. Enquanto persegue, enlevada, um Ventura que seguiu rampante, capitalizando as antipatias recebidas.
O disparatismo dos “bem-pensantes” urbanos mostra-se ainda mais no rescaldo das eleições presidenciais. Leio inúmeras declarações de nojo pelos compatriotas que se (a)venturaram - na senda das declarações do grande maître à penser Malato [nascido no Alentejo, o apresentador televisivo decidiu repudiar a sua origem devido à crescente votação no CHEGA naquela região]. Vão tal e qual, estes ululantes perdigoteiros, o prof. Ventura quando fala de ciganos. Como a parvoíce - que terá evidente substrato publicitário - da organização do festival Amplifest 2021 que anuncia não querer como espectadores quaisquer votantes do CHEGA. Ou, pior ainda, a recepção jubilosa de alguns textos mais desequilibrados que surgem nas redes sociais, invectivando os recém-eleitores desse partido.
Para além da indecência e da parvoíce de muitas destas reacções, o seu fundo, consciente ou inconsciente, é traçar uma “cerca sanitária” vs. CHEGA, para a qual será necessário traçar uma população a encerrar, o “Eleitor Chegano”, e demonizá-la. De facto, “queimá-la” (simbolicamente, espera-se) e ostracizá-la (moralmente). Daí o afã em traçar-lhe, o mais lesto possível, um perfil unívoco: os tipos da “direita”, aliás PSD/CDS; os alentejanos do PCP, como muitos referem - ainda que, de facto, o PCP não domine o Alentejo há já bastante tempo, mas tendo ali um peso eleitoral maior do que alhures.
O que me parece óbvio é que Ventura colhe votos em vários sectores - talvez não tanto no eleitorado PS, mais sociologicamente repousado, no remanso do funcionalismo público. Antes do Natal jantei com amigo emigrado, cinquentinha viajado e culto, classe média. Dizia-nos ele, algo estupefacto naquela visita anual à “Pátria Amada”, que “na minha família só eu e o meu pai é que não apoiamos o CHEGA“, e avançava, até desencantado, que lhe era agora óbvio que todos esses seus parentes “não têm vínculo com a democracia“, “são saudosistas do Salazar“ ainda que sempre tivessem sido eleitores de CDS e PSD, até consoante os momentos.
Este é um detalhe, individual, que pode ilustrar os bons resultados de Ventura em alguns locais urbanos, como as zonas mais favorecidas da “Linha” - que é a que aludo aqui. Ao mesmo tempo, e porque estou em Palmela, mostro os resultados de um universo que não é alentejano rural e que mostra como num eleitorado que habitualmente vota basto à esquerda, Ventura surge com bons resultados. Significará o que deveria ser evidente: que as pessoas votam consoante o tipo de eleições e consoante as mensagens que querem enviar ao poder - flutuando muito mais do que os ideologizados jornalistas, empenhados intelectuais públicos ou mesmo os meros drs. locutores nas redes sociais (como este jpt bloguista).
Ou seja, houve meio milhão de pessoas que decidiram ir votar num tipo que apareceu há pouco mais de um ano e que foi insuflado pela imprensa lisboeta e pelos movimentos demagógicos de extrema-esquerda. É uma amálgama de nossos vizinhos, que o fizeram por uma série diversa de razões. E decerto que o terão feito também devido à grande máxima da política: “o que parece é!”. E tudo isto parece que está mal. Pode até nem estar tão mal como parece. Mas parece estar bastante mal. E feder. E o melhor seria reflectir sobre o “estado da arte” e sobre as formas de “exposição” dessa “arte”. E não, nunca, isto de andar a demonizar os nossos vizinhos, co-fregueses.










