Feira do Livro nos Olivais
A Feira do Livro nos Olivais
(Banca de livros ofertados no “Evaldo”, entre a Rua Cidade de Bissau e a Rua Cidade de Bolama)
Os velhos cafés e restaurantes de bairro, tais como as consagradas tascas, estão a desaparecer. As razões são várias. Pelo lado da “procura” - a clientela - a mudança de hábitos é evidente, com as gentes fechando-se nas casas, abandonando as contas da rede social “vizinhança”, optando pelas grátis nas digitais e - no caso dos mais-velhos - pela infinitude de canais televisivos.
E também pelo lado da “oferta” - dos proprietários - não haverá muitas dúvidas sobre a causa desta extinção. Pois arrendar um espaço - vão de escada com postigo que seja - tornou-se empresa arrojada, até inconsciente. Mas do que isso, alteraram-se as expectativas de vida. E assim se esvaiu aquele antigo modelo do casal beirão, minhoto ou mesmo até galego, a aportar à cidade grande para dedicar a vida conjugal, de breu a breu, ao incessante e exaustivo labor de servir petiscos, “bicas” ou “penaltis” aos outros. Socorrendo-se, logo que o negócio melhorasse um pouco que fosse, de algum marçano oriundo da velha aldeia a quem mandavam “carta de chamada” oficiosa. Isso enquanto não lhes medrava a prole, esta logo que púbere posta a “ajudar”.
Nada contra isto, é uma vertente da melhoria do “Índice do Desenvolvimento Humano”. Mas este enriquecimento global trouxe também o empobrecimento local. Pois assim escasseiam, mesmo inexistem, os locais de convívio vicinal, de entreajuda moral (e não só), aqueles “centros de dia” para mais idosos ou “vespertinos” para os ariscos, tutelados pelo “amigo Quaresma” ou “Sô Claudino”, coadjuvado pela “Alice” ou “Dona Maria”. Cada um com a sua tabela de “não fiados”, tempero próprio e onde o cliente é não só alguém (o “Teixeira” ou o “Zezé” no meu caso) como encontra o habitual ror de alguéns que aprova e até demanda.
Tudo isso vem sendo substituído, esvaziando a vida cidadã. Na década de 1980 o aperto do FMI causara aquela epidemia de croissanterias às mãos das desgentrificadas da classe média remediada. Agora algumas das suas descendentes “bruncharam-se”, meneiam-se em “bistrôs” ou proselitam vegetais. E grassam as sensaboronas “cadeias”, desde a anódina lusa “Padaria Portuguesa” e suas tristes sequelas até aos evidentes investimentos em plataformas para obtenção de vistos de residência europeia, nos quais rotativos “colaboradores” servem plasticinas ditas “latte”, “kebab”, “pita shoarma” e quejandas agressões.
Face a este (cada vez mais) antipático ambiente, aqui no bairro Olivais houve recentes inovações, benfazejas. Pois foram concessionadas licenças para “barracas”, modestos estabelecimentos amovíveis que os donos trazem. E nos quais se esfalfam a trabalhar…
Na minha vizinhança, nas cercanias do pólo Centro Comercial, entre as “bocas” do metropolitano, a igreja velha, a Biblioteca e a célebre Quinta Pedagógica, estabeleceram-se duas dessas, mesmo no entroncamento da Bissau com a Bolama. Geridas por casais imigrantes brasileiros, já portugueses dadas as décadas que acumulam por cá. Modelos de verdadeiro “empreendedorismo”, essa moda ideológica reformista, de honesto “trabalho” popular, esse mais anterior valor revolucionário.
O gentil Silva, e a sua Rosângela, cumprem servindo bons pastelinhos lá na barraca amarela mesmo à saída do metropolitano - não será o “Bar Vesúvio” da Gabriela mas os veteranos vizinhos palitam os dentes e sorriem dizendo-o “Sítio do Pica-Pau Amarelo”. E voltam no dia seguinte.
Um pouco acima está a barraca de listas azul-e-branco, qual malvado F. C. Porto, e que tanto me faz lembrar as concessionadas barracas de praia (essas que agora tanta polémica causam) de “meu” São Martinho do Porto. Eu e alguns amigos dela fizemos o nosso poiso, tal como outros vizinhos o têm feito. É o local do Evaldo, um já lusobrasileiro muito boa onda - nada daquela simpatia plástica que tantos brasileiros afixam (“isso é coisa de carioca” outros me afiançam). Pois uma gentileza mesmo, de vero sorriso afivelado na sua labuta constante.
À barraca do Evaldo chamámos entre-nós o “Leblon” (“vamos ao Leblon”, desafiamo-nos, “leblonas?” telefonamo-nos). Ali se bebe o copo vespertino, no rescaldo do dia. Comem-se uns belos hamburgueres (sim, hamburgueres, pois aqui não há ponta de xenofobia comensal) e alguns canapés, produtos preparados em casa pela D. Eugénia, sua mulher.
O casal está cá há mais de vinte anos, numa dura labuta na “restauração” (como agora se chama a esta actividade). E soube, aqui em plena rua dos Olivais, criar um “sítio”. Um espaço como aqueles que décadas atrás existiam aqui no bairro, resguardados nas “lojas” dos prédios, mas que foram mirrando e, depois, desaparecendo. Ou seja, o “Evaldo” (o nosso “Leblon”) faz “bairro”, faz “Olivais”.
E nesse registo de vizinhança, de (quase) “comunidade”, neste entre-feriados soalheiros brotou uma mostra disso, desta comunhão. Pois ali se instaurou uma Feira do Livro. Alguns clientes levam livros para oferecer, outros clientes e os passantes são convocados pelo dono, este usando uma maravilhosa expressão, a “gosta de ler livros?” - que logo me fez brotar saudades ao lembrar a forma “horas de tempo” moçambicana. E quem disso gosta vasculha o que lá está nesse dia, pois a oferta sempre muda, e leva o que lhe interessar. Outros animam-se e regressam com dádivas num simpático “boa ideia!”. E vai-se bebericando, sendo vizinho.
Fazendo Olivais. Aparece por lá! Apareça por lá. Com uns livros para dar. Ou em busca de um qualquer livro… Sendo vizinho.
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