"Entrar no processo": um feixe de avulsos
Têm sido semana(s) cheia(s), assim a parecer(em)-se com o dantes, naquela era em que era feliz e o sabia. Culmino-as a assistir à conferência “50 Anos de Literatura Moçambicana”, apresentada na Gulbenkian. Chego de manhã, apanho a comunicação inicial: o Mia Couto incide na velha questão, a da necessidade de nela se reflectir e integrar os antecedentes literários, desde Camões e Tomás Gonzaga até aos do ocaso colonial, como Knopfli - em tempos já recuados tão reclamado pelo Francisco Noa e pelo Nelson Saúte - e António Quadros, este sobre quem Moçambique e Portugal continuam distraídos. E nesse apelo o Mia fez, de facto, o elogio das novas edições pela UCCLA das velhas publicações da Casa dos Estudantes do Império - e é o meu bom amigo José Paulo Pinto Lobo, ali mesmo ao meu lado, que disso me informa, pois eu as desconhecia. Pois, como dizia a velha (e pirosa) canção, “recordar (escritores) é viver”.
No fundo, aquele tema era o das “identidades”, a necessidade de se compreender que são estas compósitas - ao invés do que querem os “identitaristas” de hoje. Mas que é também uma velha questão: e o Mia Couto mostrou-o, ao terminar com a memória de um encontro literário aqui em Lisboa, há já 36 anos, no qual se discutia quem era “moçambicano” - temática que foi premente, e se arrastou nos tempos, em busca daquela “pureza” que refractava, digo eu, o sonho velho de “homem novo” de unicidade feito. E lembrou como então o Craveirinha a rematou, com a sua sageza: “não estamos divididos, estamos repartidos” - e eu lembrei-me de um episódio com ele que há pouco narrei, que tanto mostrava isto. Isto de se ser homem nada feito de “unicidades”, mas sim indivíduo, sempre repartido, pois repartível.


