"É difícil estar longe, não é??"
(Fotografia de Luís Abélard)
Há um mês - como aqui disse - morreu o meu amigo Fernando Carvalho. Conhecemo-nos em Maputo, há mais de vinte anos, e lá coabitámos durante uma década. O Fernando estava doente há algum tempo, vivendo no seu Porto. Entretanto tivemos raros telefonemas e várias mensagens - eu bombardeava-o com as minhas ligações para os postais de blog… Ele por vezes respondia: resmungou com o meu recente texto sobre a Embaixada do Brasil em Lisboa. Cito-o agora, porque é relevante: “Como sabes a minha mulher é brasileira. E digo-te: as atitudes para com ela, de vários quadrantes (e nomeadamente muito nos serviços públicos) são muitas vezes carregadas dessa xenofobia, às vezes disfarçada. Coisas que me arrepiam os cabelos.”. Respondi-lhe aquilo que ele antes bem percebera: o meu protesto não era a negação disso, foi com o atrevimento da embaixada brasileira.
Mas o nosso diálogo, esparso, era mais sobre Moçambique - até ao seu final o Fernando sempre esteve atento ao país de que tanto gostou. As últimas mensagens que me enviou foi uma chamada de atenção para um filme de que muito gostara, o Margot - o excelente documentário que a minha colega Catarina Alves Costa fez sobre Margot Dias. E a reacção “já encomendei” à minha divulgação do lançamento do Da Santidade na Perspectiva dos Pangolins, o recente livro do António Cabrita, no qual o autor “ajusta (as suas) contas” com o país, após duas décadas por lá. E foi ele que me avisou do recente assassinato do bispo católico de Quelimane.
Foi também ele o último a encomendar-me o meu Sentido Obrigatório: Acerca de Moçambique, para oferecer a um amigo. Antes lera o livro. E apesar de saber que eu dissera “Bye Bye” a escrever sobre política moçambicana - enfastiado com o boçalismo a ecrã aberto dos intelectuais políticos austrais -, diante do meu “Rumo de Moçambique” (o último capítulo do livro) desafiara-me “agora tens de escrever um texto destes só sobre a última década”. Coisa que nunca farei…
Mas também - e nisso comovendo-me, pois sabendo-o bastante doente - me enviou uma lista de 12 “gralhas” que encontrara no livro. Agradeci-lhe mas nem emendei o texto - coisa fácil de fazer neste registo de auto-edição. Pois o livro colheu pouco interesse, e as escassas encomendas haviam terminado há alguns meses.
Mas agora que o Fernando morreu senti-me obrigado a usar o trabalho que ele me ofertara. Revi a dúzia de erros que ele indicou, mais uma meia dúzia que eu encontrei - a revisão de um texto é um trabalho infindável… E renovei o livro. Mesmo que a poucos possa interessar. Hoje chegaram-me os três exemplares que encomendei: um para mim (que não tinha nenhum…); outro para o Pedro Sá da Bandeira, que me ombreara na grande festa de apresentação do livro - e que também não o tinha. O outro será para quem o apanhar… E julgo que será o finale da colectânea. Mas tinha de o fazer.
Há dois ou três meses, respondendo ao meu envio de um qualquer texto sobre Moçambique, o Fernando escreveu-me “É difícil estar longe, não é??”.
Sim, é! Talvez não tanto de um onde. Mas mais, muito mais, de um quando…
(Como este Agosto de 2014, na Engels, na sua casa, que antes fora a nossa, minha e da Inês, e onde começou a Carolina.)
Postal colocado na categoria In Memoriam.



