Desde Lagos
(O clérigo mouco 25)
Ontem vim além-Tejo. Sénior, proto-geronte, estafado pelas coisas da minha vida, distraído adormeci nas cercanias de Tunes, dei acordo - pingo no nariz, lágrima enremelando-se, baba já cristal no recanto dos beiços - após o entroncamento, comboiando caminho de Faro. Ali, pus-me em bolandas, meio desaustinado, soube lá ausente a âncora Veloso, o chofer de praça riu-se “para Lagos? Seriam cento e tal euros, ó homem vá de comboio e coma uma mariscada”, eu maldizendo-me em urgências de encarnar Florentino Ariza, esse que há décadas julguei meu alter ego (foi coisa breve, constatei depois). Enfim, após inúmeros passos estugados lá lacobrigei, cumpri a tarefa e nisso também me revivi na Villa de Leyva, à qual Florentino se recusou, e no Magdalena, onde ele se cumpriu, serôdio.
Em tudo isto eu exausto. Algo ridículo. E, pior, mais radículo. Torto, empenado. Sigo para o hoje, nem cinco horas de sono. Pois não há vaga ferroviária, a habitual armadilha do “passe verde”.... Acorro à camioneta madrugadora. Estação vazia, pergunto “alguém vai para Lisboa?”, o vizinho sossega-me e depois, enquanto esfumaçamos, ávidos, confessa-se “Vou só para votar, regresso às nove”. Sorrio, ombreio “é o nosso direito cívico - jamais “dever” já não lho digo -, e se queremos depois resmungar...”. Ri-se. Avançamos, apenas três passageiros aqui de Lagos.
Também eu por isso abdiquei do meu domingo a Sul, de devaneio ou modorra. Sigo a Lisboa para votar, lá no meu bairro, por motivos de higiene pública, para tentar arredar o nojento PS olivalense, de gente ralé - de facto, digo eu sexagenário, o âmago daquele partido. Pode alguém contestar isto, quando têm o desplante de agitar a execrável (termo fino, pós-auto-censura prévia) Edite Estrela como “mandatária” para o nosso bairro? Enfim, urge “desrutificar” os Olivais, erradicar sequazes e comparsas da ainda presidente Rute Lima, a colunista do sempre dito “de referência” Público..
Mas vou também para votar no meu candidato a presidente. Opção reforçada pelo coro de coirões que o invectiva. Pois do “Minho a Timor”, perdão, “ao Algarve”, são vários os de alhures que se agitam a dizer aos lisboetas quem devemos nós eleger. Sobrevoo os respectivos murais, lá das terras deles nada dizem, “Lisboa”, esse pseudónimo de “São Bento”, é que lhes interessa.
Sucedem-se as invectivas a Moedas. Dizem-no “o pior presidente de sempre” e “sem programa”, lá do Minho um catedrático nepotista (sei-o bem) trata-o pior do que o Espírito Santo aos feitícicos xicuembos, da Outra Banda um ex-activista socratista di-lo “o pior que há na direita portuguesa” (um além-Ventura, por assim dizer).
Antes do meio-dia chegarei a Lisboa. Vou dormir até lá. Depois irei votar. A ver se se ganha a este ramalhete de “espíritos santos”. Relíquias de pechisbeque.

