De Quelimane a Nova Iorque
(O Clérigo Mouco 43)
O Assassinato do Bispo de Quelimane
Durante a noite de ontem assaltantes invadiram a residência oficial (“Paço Episcopal”) do bispado de Quelimane e assassinaram Osório Citora Afonso, ali bispo desde 2025 - o qual em Abril passado fora nomeado também administrador apostólico interino da Beira.
As notícias não ecoam quaisquer indícios de roubo. Entretanto chegam-me fotografias do seu cadáver, as quais me eximo de partilhar - e é denotativo do estado insecuritário que estas brutais imagens passem de imediato para o público. Tudo indica que o bispo foi, pura e simplesmente, executado com tiros de metralhadora, a simbólica AK-47, a qual também não é arma usual entre meros criminosos de delito comum.
É evidente o carácter extraordinário deste crime. Pois mesmo sendo recorrente o assassinato de clérigos católicos em diversos países, neste XXI há apenas notícia de outros quatro assassinatos de bispos: O’Connell, bispo auxiliar de Los Angeles, abatido em 2023 por um indivíduo com problemas mentais; Padovese, morto em 2010 por motivos religiosos na Turquia pelo seu motorista; Courtney, núncio apostólico no Burundi, vítima de emboscada em 2003; e Cancino, morto em 2002 em Cali por iniciativa dos cartéis guerrilheiros.
Ou seja, este inusitado assassinato de um bispo católico é demonstrativo do estado geral em Moçambique, o de uma violência armada galopante que segue impune. A qual integra a perseguição aos oposicionistas políticos - como denuncia o partido Anamola, alertando para o assassinato de 57 dos seus membros durante o último ano. Sendo que é usual não serem encontrados os agentes e os mandantes desses crimes.
E, mais ainda, a prevalência do conflito no Cabo Delgado, já longo de quase uma década. No qual nestes últimos meses a “insurgência” islamita vem recrudescendo as acções, também muito incidindo sobre instalações e agentes cristãos. E dizer isto não é reduzir o conflito a uma “guerra de religiões” - como logo alguns “intelectuais” acorrem a criticar. É apenas constatar uma realidade.
Sendo assim surpreendente que a União Europeia tenha agora terminado o financiamento ao destacamento ruandês - que agora passou a provir de Maputo. O qual está na região para suster aquela guerrilha, dada a incapacidade patenteada durante anos pelas forças armadas moçambicanas para cumprir esse objectivo. Um caso de desatenção europeia, muito provavalmente provocada por excessivo seguidismo às sanções norte-americanas aos parceiros do Ruanda. E se há caso para se exigir autonomia face aos EUA é este! Pois há que matizar as políticas externas.
O bispo Afonso havia recentemente denunciado esse aumento da actividade da guerrilha islamita, e alertado e para a perseguição que (também) os membros do clero católico sofriam. E é dramaticamente exemplificativo que a sua última prelecção pública - nesta gravação - tenha sido na véspera da sua morte, uma ecuménica visita a uma mesquita em prol da pacífica convivência inter-religiosa.
Este lamentável assassinato mostra bem o estado da situação moçambicana, económica, política e militar. Só não a vê quem não quer.
Ao Conselho de Segurança
Há uns dias aqui coloquei o texto “Escravos nas Nações Unidas” no qual defendi a pertinência de uma recente abstenção portuguesa nas Nações Unidas durante a votação de uma proposta de cariz ideológico. Considerando que não é o momento para exarcebar conflitualidades, espúrias, que adviriam de um voto negativo.
Agora, dois meses depois, Portugal foi eleito pela quarta vez para um biénio como membro não-permanente no Conselho de Segurança da ONU - já ocupara o lugar em 1979-1980, 1997-1998, 2011-2012. E, ao invés das situações pretéritas, desta vez a eleição ocorreu logo na primeira ronda de votações. É um sucesso que traduz um bom trabalho da diplomacia portuguesa - uma actividade demasiado subvalorizada - e demonstra uma boa percepção internacional sobre os rumos do nosso país.
Ou seja, as coisas reais são assim - e é melhor dirimi-las com realismo do que entrar em frenesim diante dos radicalismos alheios, tantas vezes superficiais.
É certo que alguns tendem a invectivar que “a ONU é inútil”, “nada resolve” pois “não tem poder!”, “basta ver o estado do mundo”, muito por ser uma “confusão” - o pobre termo com o qual conseguem formular a percepção de pandemónico babélico que sobre a organização têm. É evidente que estas pobres, de irreflectidas, opiniões normalmente são emitidas pelos mais ferrenhos adeptos da “soberania nacional” - aqueles da “Europa das nações”, os mais reaccionários dos reaccionários -, como se esta sacra e quase infinita. Enquanto ao mesmo tempo criticam uma multilateral universal por “não mandar”, não lhes restringir bastante a tal “soberania”. De facto, no afã da contestação, há quem não perceba as contradições próprias.
O exercício deste lugar no Conselho de Segurança não atribui um “poder” mandante, fáctico. Mas permite alguma influência na administração das problemáticas em curso e no agendamento de questões internacionais que sejam mais relevantes para o interesse (não necessariamente interesseiro) nacional - sobre o exercício anterior (2011-2012) basta procurar o descritivo artigo “Portugal no Conselho de Segurança das Nações Unidas e a Importância das Questões de Direito Internacional Humanitário Face aos Conflitos” de Sónia Roque. Assim sendo, esta eleição é um dado positivo.
E não posso deixar de pensar isto: há seis anos louvei a excelente actuação do então eurodeputado Paulo Rangel face à inércia geral reinante sobre o Cabo Delgado. Fê-lo num bom artigo no “Público” em crítica ao nosso próprio governo de então. E numa bela intervenção no Parlamento Europeu - no qual encabeçou uma preciosa Resolução sobre o assunto.
Muito espero que o agora Ministro dos Negócios Estrangeiros Paulo Rangel, após ter capitaneado o esforço português para ascender ao Conselho de Segurança, possa promover as urgentíssimas matérias moçambicanas para o rol de preocupações prioritárias deste orgão máximo da ONU. Para a sua “agenda”, como sói dizer-se.


