As noites de Junho
(Gazeta 13)
A minha Gazeta 14 (as anteriores estão aqui). Tenho andado embrenhado num texto mais longo, escasseia-me o tempo para animar este “O Pimentel”. Ficam aqui cinco breves abordagens, as quais me servem para “prova de vida” junto dos simpáticos subscritores, para que não julguem que os esqueci… Abaixo, entre opiniões próprias, coloco um filme sobre Lisboa e evoco (citando trechos) alguns livros, imperdíveis. Para além de falar dos “meus” Olivais.
As noites de Junho
George Steiner - que tão marcante foi (ainda o será?) - encetou assim o seu “Gramáticas da Criação”, reflexão sobre as assombrações que pairam sobre “nós”, este “ocidente” democrático e desenvolvido: “Já não temos começos. (…) O escriba da Idade Média assinala o início de uma linha, o novo capítulo, por meio de uma capital [maiúscula] iluminada. No seu turbilhão dourado ou carmim, o iluminista de manuscritos dispõe animais heráldicos, dragões matinais, cantores e profetas. A inicial, significando a palavra o começo e o primado, é uma fanfarra. Proclama a máxima de Platão, que nada tem de evidente: a origem e a excelência maior de todas as coisas, naturais e humanas. Hoje, entre as inclinações ocidentais (…) os reflexos, as inflexões da percepção são os da tarde, do crepúsculo.”
Ora sempre associei esses “princípios” aos crepúsculos, os magníficos de longos das “noites de Junho”, madrugadas dos devaneios dos veraneios, épocas de deflação da angústia, anseios de ascensão a qualquer outra coisa... Depois, envelhecendo, nos largos últimos tempos fui-me associando aos usuais lamentos vizinhos, esses “já não há noites de Junho como dantes”. Até que, há dois ou três anos - e foi lá por Palmela -, constatei não ser isso verdade. Pois estão cá os longos crepúsculos, as tardias e cálidas noites de Junho, trata-se apenas de os saber fruir.
Este ano não o tenho feito. Desbaratando as réstias de vida que acorrem?, quantos mais junhos terei?… Isto porque há algum tempo aqui deixei o texto “Escravos nas Nações Unidas”, sobre uma dessas tais assombrações, um obscurantismo internacionalizado e por cá saudado por alguns. Alguém dele gostou e convocou-me a burilá-lo, fazendo-o evoluir.
E assim vou gastando estes longos anoiteceres, um pouco em reescritas, muito em leituras. Entre estas regressei a estes luminosos catálogos da “Nas Vésperas do Mundo Moderno”, o “África” e o “Brasil”. Foi uma fulgurante exposição produzida em 1991 pela Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses e que, pela sua dimensão e esplendor espectacular e intelectual, constituiu-se como o verdadeiro início dessas celebrações. O catálogo “África” com um texto de Jill Dias, o “Brasil” com vários colaboradores. Um conjunto constituindo uma preciosa análise crítica daquela era da expansão portuguesa. Tudo foi realizado sob uma comissão científica constituída pelos antropologos Jill Dias, Rui Pereira e Benjamim Enes Pereira.
E sorrio, entristecido. Pois comparo o que então se produziu com o panfletarismo ideológico e a anacrónica conceptualização patenteados, 30 anos depois, na sua relativamente congénere exposição “Desconstruir o Colonialismo…” - que até comissária política teve -, produzida para o Museu Nacional de Etnologia e que por aí anda em digressão, sobre a qual protestei no postal “O Colonialismo Exposto”. Comprovação da degenerescência do ambiente intelectual nacional, causado pelo afã do “activismo”.
Enfim, deixo o conselho: não será obrigatório gastar este Junho a ler/ver os catálogos. Mas não deixar escoar o Verão sem fazer isso…
Época balnear (e a velha Lisboa)
(João Abel Manta, “Turistas”, 1971)
Nas “redes” vejo que continua a polémica sobre o veraneio, este tornado componente sociocultural fundamental nesta era nacional, e à qual aludi no postal “Ir à praia”. E nisso lembrei-me deste magnífico resumo do “estado da arte” do país feito por João Abel Manta em 1971 - friso que, como há dias disse no postal “Diante da morte alheia”, dado haver tanta censura intelectual às evocações daqueles que vão morrendo se feitas por nós-pobre-povo, que não me abalanço a fazê-la ao artista, que morreu em Maio.
Mas lembro-o aqui. É certo que o país já não é 1971, que muitos dos “turistas” são internos, pois o “vá para fora cá dentro” foi possibilitado pela União Europeia. E que as gentes das nazarés balneares já não se acabrunham sob vestes negras na ânsia de alguns marcos ou francos. Mas a lógica subjacente parece que regressou àquele tempo, a ânsia dos agora euros gastos “a banhos”.
Mas ao invocar João Abel Manta lembro-me de o ter “conhecido”, na minha adolescência, através destas duas colectâneas de “Os Corvos” - que levaram de corrosivo subtítulo “Sobre a Nudez da Publicidade e o Manto Diáfano da Tipografia” - da autoria de Leitão de Barros, publicadas no “Diário de Notícias” entre 1953 e 1967, e que o artista ilustrava.
São textos imperdíveis, na sua maioria com ironia e até sarcasmo, mergulhados na vida lisboeta, e sem pejo de cutucar os próceres de então. O primeiro cronista que eu acompanhei foi Augusto Abelaira, que tinha a coluna “Escrever na Água” publicada no “O Jornal”. E foi depois, por ele cativado para aquele registo das crónicas, que nessa ainda inicial adolescência retirei das estantes paternas estes volumes (foram comprados em 1964, como tal não abrangem a totalidade da vigência da coluna).
Agora - e porque as “(re)leituras são como as cerejas” - como estou a reescrever o tal “Escravos na ONU” - disse-o acima - e nisso a conviver com os que querem demonizar a história de um país de marinhagem, lembrei-me deste trecho e fui procurá-lo…
“Quando ontem ouvi duas peixeiras descomporem-se em belo português arcaico, pensei naquela rubrica das “Seleções”: “Enriqueça o seu vocabulário”. Alguns daqueles termos que, como dizia um académico, parecem “o baixar de portas onduladas” foram palavras cruzadas nesse violento “ping-pong” de pé-fresco, “modalidade” desportiva em que elas são exímias. E veio-me então a ideia um velho cavaco com o saudoso Agostinho de Campos, em que ambos reconhecemos que marujos e regateiras sempre tiveram mais influência na língua portuguesa do que todos os elásticos enfiados numa linha. E, senão vejam vocês como o mar está sempre presente na nossa linguagem de cada dia; - são “aos cardumes” as frases que ele fabricou e nós dizemos a cada minuto:
“Remar contra a maré - Gaivotas em terra, temporal no mar - Anda moiro na costa -Uma tempestade num copo de água - Uma gota de água no oceano - Pela boca morre o peixe – Não pescar nem bóia - Com a borda debaixo de água - Embandeirar em arco - Ter uma grande proa - Andar enfunado - Pescar nas águas turvas - Andar em maré de rosas - Nem tanto ao mar nem tanto à terra - Grande nau, grande tormenta - De vento em popa - Há mais marés que marinheiros - Mais vale andar no mar alto do que nas bocas do mundo - Dar água pela barba - Ficar a ver navios - Ir à vela - Ir-se embora com vento fresco - Estar de maré - Meter água - Marinheiro de água doce - Ficar em águas de bacalhau - Nem tudo o que vem à rede é peixe - Andar a leste - Filho de peixe sabe nadar - Comer a isca... - Deixar a carga ao mar - Barco parado não faz viagem - Quando há vento é que se molha a vela - Quem vai para o mar avia-se em terra.”
E até os antigos amantes de farta bigodeira, ao pensarem nas “ninfas” cabeludas do Mondego, quando elas usavam negros reposteiros capilares até ao chão, expressavam se e “exprimiam se” assim:
Nas ondas do teu cabelo / Vou-me deitar e afogar, / Eu quero que o mundo saiba / Que há ondas sem ser no mar…
Hoje, as pequenas ondas das cabeleiras existencialistas não chegariam para molhar uma só unha de pé amoroso. O cabelo, como as saias e as cuecas - é Hoje essencialmente simbólico. O mar, por sua vez, deixou-se de fazer frases novas. Esperemos com paciência que estes “Corvos” registem num “Notícias” de Novembro de 2053, a influência da navegação estratosférica na prosódia portuguesa...” (volume I, pp. 115-116)
(Lisboa, Crónica Anedótica, de Leitão de Barros)
E como recordo o lisboeta Leitão de Barros aqui deixo para os subscritores e visitantes o filme mudo do cineasta, o “Lisboa Crónica Anedótica” (1930) - evidente anúncio da atenção autoral que veio a traduzir-se, décadas depois, nas crónicas de “Os Corvos”. Sei que as nossas sensibilidades estão moldadas no burburinho, até cacofónico, do audiovisual. Mas esta mudez dos actores (alguns deles que nos ficaram célebres após a introdução do sonoro) é deliciosa na sua transcrição do mundo “alfacinha” de então…
Os mal-barbudos
Há dias explicitei a importância que atribuo às comemorações do 10 de Junho - e também por isso tanto me irritei com a mediocridade demagógica das celebrações de 2025, como então aqui invectivei.
Depois percebi que uma parte dessas celebrações ocorreram no Luxemburgo, país no qual residem bastantes portugueses. E logo recordei - num “que coincidência!” - este meu recente texto sobre Carlos Brito, pois nele fiz uma breve recensão a um seu romance em que o Luxemburgo surgia como matéria-prima dos devaneios esquerdistas, num rumo do autor dotado de espantosa actualidade…
Mas sobre as comemorações do 10 de Junho em Angra do Heroísmo deixo também uma memória - como se crónica. A elas assisti na televisão, pois estava interessado nos discursos, em particular o de Miguel Monjardino, um intelectual muito capaz.
Ora nesse entretanto atentei nos militares ali perfilados, em parada, esperando a revista presidencial. E notei uma característica: os da Marinha estavam todos escanhoados. Mas entre os restantes contingentes, pertencentes a outros ramos militares (e policiais, se não estou em erro) abundavam os barbudos, e os indivíduos apresentavam-se com diferentes talhes.
Decerto que tudo é regulamentar, ainda por cima perfilando-se diante do comandante supremo e da televisão nacional. Mas é denotativo de um outro estar-militar, talvez mesmo ser-militar, algo diverso do que o acontecido anteriormente.
Mas o que me afrontou mesmo foi outra questão. É evidente que os regulamentos são iguais para todos, os direitos e deveres devem ser vividos de forma homogénea, pois a obediência à lei (ao regulamento) presume a igualdade diante dela. Mas há uma superior Lei, a do Bom Senso. E face a esse mandamento superior, o tal Bom Senso, levantam-se as diferenças entre as características dos indivíduos, as quais devem ser dirimidas com justiça mas também firmeza pela hierarquia.
Quero com isto frisar que os homens se dividem em dois grandes grupos. Não entre os de “barba rija” e os “glabros”, como o velho machismo estipulava. Mas entre os de barba homegénea e os de barba rarefeita - desde sempre ditos "de barba mal-semeada”. Ou seja, há quem possa usar uma barba digna, homogénea. E há os da rarefeita, mal-semeada, aos quais cumpre escanhoarem-se. Sem quaisquer isenções…
E o que ali na parada de Angra de Heroísmo se viu foi um agregado de militares, até mesmo oficiais (!), com barbas mal-semeadas, tantas as faces apenas pintalgadas de escassos tufos, num patético desirmanado capilar que não há “talhe” que legitime. Ainda por cima numa cerimónia protocolar daquela relevância. Um grande mau aspecto, sem rebuço.
À noite, irado com o estado da tropa, telefonei a grande amigo, um coronel veterano de inúmeras missões mundo afora… E o qual nunca vi barbudo. Lamentei, em queixume, os disformes pêlos de uma assim aparente tropa-fandanga. Riu-se, concordando com o meu mal-estar. E logo ripostou, em apropriada linguagem de caserna que cito com cautelas “protocolares”: “pêlos tenho-os no …. e … neles!”.
Mas mais avançou, sociológico: “isso das barbas começou há uns anos. Tivemos destacamentos no Iraque e no Afeganistão, e lá se começaram a deixar crescer as barbas em sinal de respeito pelos homens locais”. “E tornou-se moda”, “agora andam uma data deles assim”. “Armados em parvos”, ripostei eu, “então um tipo estacionado nos Açores anda a pavonear-se como se fosse veterano lá em Bassorá?”, “não há um furriel, um coronel, que os mande rapar-se?”, já me exaltava eu…
“Eh pá, já não há”, “isto está tudo assim!”, respondeu-me. E, taxativo, culminou “até já há oficiais tatuados!”. Chegámos ao fundo, concordámos. E combinámos um jantar, para espantar as mágoas face a esta era, de barbas mal-semeadas e tatuagens.
Livros nos Olivais
Entre os feriados, nacionais e lisboetas - época de poucas leituras digitais - aqui deixei nota sobre uma mais-que-informal “Feira do Livro nos Olivais”, a acontecer na minha vizinhança, agregando-lhe também um esboço/sinopse de ensaio sobre a “vida de bairro” - um conjunto de ideias que me acompanhou quando no ano passado me estreei “na actividade política”, integrando uma candidatura autárquica.
E agora, passado já uma semana, refiro que a tal feira do livro dadivosa na Rua Cidade de Bissau, continua em vigor. Os moradores vão passando e deixando livros para ofertar, alguns monos outros nem tanto. E as quantidades vão aumentando, tanto que o escaparate passou de uma mesa para um estendal, já um “esplendor na relva” poderá dizer um leitor apaixonado.
Hoje lá voltei, levando mais um carregamento de ofertas. Livros de que (já) desnecessito e que estou crente que podem ser agradáveis ou úteis a algum vizinho. Fica o desafio aos passantes pela zona oriental lisboeta, às “gentes do Trancão” - passem pela esplanada do “Evaldo”, a cerveja é bem gelada, o ambiente é simpático. E… há livros.
Trump e Teerão
Neste trumpiano (des)arrumo parece haver um acordo (ou será trégua?) entre EUA e Irão. Ormuz será cruzado livremente ao que consta. Não vou abordar as matérias políticas, militares e económicas, sobre as quais há imensa gente a escrever - repito o aviso aos visitantes deste “O Pimentel” que é também conselho: nesta plataforma Substack há várias páginas sobre política mundial que são muito interessantes de analíticas e, acima de tudo, fidedignas.
Apenas venho aludir ao agora recelebrizado estreito de Ormuz. No início desta peleja muito se falou do guerrear que por lá fez in illo tempore Afonso de Albuquerque - deu para pirraças, até internacionais, com o atrapalhado Trump. Agora, na paz, aproveito para lembrar o magnífico “Livro de Duarte Barbosa” (deixo capa da edição mais acessível, da Europa-América). Um dos textos portugueses iniciais sobre o Oriente, um roteiro que é de leitura deliciosa - e mais pelo que se pode agora reconhecer da capacidade de observação de um homem daquela era. Julgo que terá sido terminado - ficando inédito - em 1516… O texto tem uma descrição um pouco maior do então reino de Ormuz. E esta parte incidindo sobre o tal estreito…
(Transcrevo da edição que tenho, infelizmente amputada da parte inicial que incide sobre a África austral, Moçambique em particular - será a primeira alusão ao então conhecido por Monomotapa (no actual Zimbabwe. É o Duarte Barbosa, “Livro do que Viu e Ouviu no Oriente”, Publicações Alfa, 1989, com comentário final do grande historiador Luís de Albuquerque.)
Ilhas do Reino de Ormuz
a mesma ilha em que está a cidade de Ormuz está entre a costa da Arábia e Pérsia, em a boca do mar Persiano. Indo para dentro, estão muitas ilhas estendidas mesmo por este mar que são mesmo do rei de Ormuz e estão à sua obediência que são estas seguintes: primeiramente, Queixime, que é uma ilha grande, muito viçosa, e tem dentro de si grandes povoações de onde a Ormuz vêm muita fruta verde e muita soma de hortaliça; deixando esta, está outra que chamam Andra e outra que chamam Bascarde e outra que chamam Lara, e está outra que chamam Soar, e outra que chamam Fomon, outra Firol, passando esta, outra que chamam Barém. Estas ilhas de Queixime e Barém são duas ilhas grandes; Barém é uma ilha onde vivem muitos mercadores e outra gente honrada, afora outros muitos que nela estão estantes de muitas partes, a qual ilha está muito metida pelo mar Persiano onde navegam mesmo muitas naus com muitas mercadorias. Na qual ilha, ou derredor dela, nasce muito aljôfar e muitas pérolas grandes e muito boas. Os moradores da mesma ilha o pescam, donde hão muito grande proveito.
O rei de Ormuz tem muito grande renda de direitos, e rende-lhe esta ilha e, assim, todas as outras muita soma de dinheiro.
Os mercadores de Ormuz vêm mesmo a esta ilha de Barém comprar o dito aljôfar e pérolas, para mandarem ou levarem, caminho da Índia, a vender, onde gastam muito dinheiro. Também vão ali buscar para o reino de Narsinga, assim, também vão comprar para toda a Arábia e Pérsia. De maneira que em todo este mar Persiano se acha muito aljôfar e pérolas, a saber, de Barém até dentro a Ormuz; porém, em Barém é a mais quantidade dele. (pp. 23-24).







