Arruaça & Arruadas
Arruaça
Nisso até ufano aqui deixei este texto, um pouco mais longo pois sobre as demoradas coisas do mundo. Logo um mais-velho me telefonou, a sua generosa mão aflorando o meu corcovado ombro num “não está mal, mas melhore lá isso!”. Apneei. Mais fundo e longo do que esperava, assim em menosprezo pelas gentes reais, as da superfície.
Em ânsias de me escorar, vasculhei as estantes na busca de capítulos esconsos, sublinhados esquecidos ou mesmo rabiscos feitos pepitas… Na empreitada calcorreio assuntos que não são os meus, alguns curiosidades de jovem maduro, outros materiais da era docente, essa que se fez antiga, é-me nostálgica mas já pouco dela recordo. Nisso reencontro livros há muito escondidos, uns arrumados aquando do retorno à “pátria amada”, outros alinhados até bem antes. A vários abro-os para os descobrir agora com as páginas apartando-se, descoladas. Não os dos meus pais ou avós ou bisavós, esses resistem - “material do tempo da guerra” antes se dizia… São os meus, coisas fim-de-século, que decaem, no desmanuseio sofrido secaram-se-lhes as lombadas.
Não sou bibliófilo, os livros não são ornamentos nem as estantes altares… Mesmo assim brotam-me praguejos diante deste degenerar avulso. Depois, já regressado à tona, interpreto a mensagem. Pois nesta apneia que imaginei rápida, quis urgente, faltou-me o fôlego, desconcentrei-me, alheei-me nas notas, amnesiado nas articulações, acinzentado nas induções, atrapalhado nas implicações. Confundido na escrita. No cansaço da indisciplina própria? Não, a essa conheço bem (demais). Agora é a secura da minha lombada, as minhas páginas descolando-se, esvoaçando até, nisso o exemplar incompletando-se.
Acabo o trabalho, falta apenas revê-lo. Durmo um sono solto, mais longo. Na madrugada levanto-me, esfumaço e bebo um café da véspera. Regresso ao sono, aquele superficial matinal, recordo o sonho feliz tido, daqueles que tanto entristecem o estremunhar na realidade. Segue-se uma manhã vagarosa. Avanço até alegre almoço com belos sobrinhos, eles em sequência que me faz avoengo. Prossigo até uma beldade encantadora, está em risonho comité de amigas que fruo. Entretanto chega o meu padrinho, entretemo-nos na suave verrina que nos é habitual. E, logo depois, aporta amiga que foi, com seu tão gentil marido, meu porto de abrigo na Bélgica. E diz-me da sua descoberta do dia, um restaurante português (!!!) nas cercanias do Bairro Alto, sítio à antiga, ali vigora o nosso cardápio, bem conduzido, preços responsáveis, clientela compatriota - “digo-te o nome mas não o divulgas!”, completa, pois “se aquilo vai para o Trip Advisor estraga-se logo…”, sabemos bem disso.
E assim culmino este dia tão aprazível - pacificador mesmo - lá jantando. Estou pai, “Isn't she lovely / Isn't she wonderful / Isn't she precious / … / Isn't she pretty / Truly the angel's best…”, sempre me ocorre quando assim, piroso militante que ela me torna. Que vem com o seu homem, o qual descubro, e nisso exulto, um dylaniano, mostra-se assim ele ao ouvir-me invocar a “simple twist of fate”, saudoso que estou do meu parrot that talks… Os elogios à casa de pasto são merecidos, afiançam-no as sorridentes duas dúzias de comensais compatriotas - com excepção do nosso transpirenaico - um decente curado de Nisa, saboroso caldo verde, condigna sopa alentejana urbana, a verdadeira alheira - essa que é como casamento, só depois de aberta… -, os nacos de porco e, sublinho, os jaquinzinhos…
O jovem casal, saciado, sai rumo a uma festa, e elegantes vão. Eu recosto-me a torcer pela Noruega e até remo. O distante mas simpático empregado estará também pelos Vikings, pois vendo a minha tendência oferece-me - “este é da casa” - um competente bagaço branco, dito “lá da terra” e assim sabe… O jogo demora-se em prolongamento, alterno-o com a releitura da breve pérola de Kantorowickz que há dias redescobri. Finalmente termina, os vikings vão para casa. E eu também. Rumo ao Camões. Mas o dia foi longo e eu se a ele cheguei exausto estou agora derreado. Por isso me escapo do metropolitano e opto pelo luxo Bolt. Mas o telefone está descarregado. Insulto-me. E faço a estroinice de apanhar um táxi.
Abro a porta e pergunto se tem multibanco. Que não, responde o chófer de praça. Digo-lhe o destino, defronte a um centro comercial, levantarei o dinheiro nos multibancos externos que lá estão, estará ele de acordo? Anui, entro e seguimos. Em silêncio. Cá chegamos. Eu digo-lhe “então vou levantar dinheiro” e saio. O chófer sai também, vem no meu encalço, a quatro ou cinco braçadas, vituperando-me, “tenho de aturar bêbedos”, “estou a perder tempo!!”, “não queres pagar”. Vejo a vida mal-parada, a noite desmanchada.
É um trintão, encorpado, a chegar aos 1,90, daqueles alourados que os nossos mitos identitários e seus etnólogos disseram “celtas”, a nossa componente “ariana”, tantas vezes entendida como “virtuosa”. O sotaque carregado de “jjjs” confirma-o minhoto, presumo-lhe avoengos rudes montanheses de Castro Laboreiro, sempre avessos à “guarda”, viscerais no desdém pelas gentes da cidade, imagino-os em abruptas idas às feiras cerca de Arcos de Valdevez, investidas a captarem moçoilas com buços destinadas a procriar e às courelas. Depois um pai até descido à grande Braga - ou em biscates por Guimarães. Este agora emigrado para a Capital, a dos malévolos “doutores”…
O multibanco dos CTT está sem dinheiro, ele redobra em impropérios, vai reduzindo a distância para comigo - e eu deixo-me de arremedos de Rentes de Carvalho dos Olivais -, digo-lhe que ali a trinta metros há outra caixa e lá vamos, na escuridão sob as arcadas dos edifícios. Mas a caixa desapareceu (“retiraram-na há algum tempo”, dir-me-ão vizinhos no dia seguinte). O latagão está prestes a explodir, repetindo os desaustinados impropérios. Regresso rumo ao carro e digo-lhe “vamos para o táxi, você liga a bandeirada outra vez, ganha mais dinheiro, seguimos até à Caixa Geral, que é muito perto, lá há vários multibancos, não haverá problema. E ao lado é a esquadra, entrega-me à polícia se eu não quiser pagar…”. Mas isso de nada me serve, nega-se e continua em gritos.
Percebo bem a situação, que é mais complicada do que aquilo que eu possa vir a escrever: o ainda jovem energúmeno está descompensado, talvez na coca ou outros químicos que eu desconheça, decerto em desatino. E está a enfrentar um exausto sexagenário, o tal da lombada já descolada, esse mesmo que eu acabei de reconhecer - pois antes, até mesmo se só há 10 ou 20 anos, por complicados episódios que tenha eu tido, nunca se me destrataram desta maneira… Assim é irresolúvel. Vejo “a vida a andar para trás”. E lembro-me do meu Smith&Wesson 22 que vem estando abandonado em casa. E digo-lhe calmamente: “Também pode ser de outra maneira. Eu vou lá acima a casa buscar o revólver e resolvemos o assunto.”
O tipo estanca! E muda para um ríspido “Então paga aqui!!”. “Como?!” surpreendo-me… “Com o cartão!”, culmina sonoro. “Afinal você tem Multibanco??!!!”, iro-me (ainda mais). “Então para que é que foi isto tudo!!!”. “É que assim só recebo daqui a dois dias… E estou sem dinheiro!!”, grita-me. Pago, ele arranca. No seu desvairado rumo. Eu subo, junto-me ao meu parrot that talks… (“Não decoraste a matrícula?”, perguntam-me no dia seguinte. “Não, estava pressionado, até atarantado”, respondo em acabrunhada vergonha…)
ADENDA:
[Esta minha narrativa - crónica se algum leitor a quiser elevar - é totalmente verídica. Tem apenas dois adornos, colocados em busca de captar atenções:
1) para quem me queira acusar de ser homem de ideologia fascio-“vigilante”: eu não tenho nem nunca tive qualquer arma. A retórica “literária” serviu-me para captar a atenção energúmena…
2) para quem me queira acusar de ser um preconceituoso, até fascio-racista, por fazer generalizações abusivas, nisso promovendo desvalorizações e temores face aos migrantes minhotos / nortenhos, apenas por seus diferentes sotaques e aspectos fisionómicos. A retórica “etnológica” serviu-me para amansar a atenção “wokista” - pois o latagão mariola não é nem louro nem minhoto de putativa ascendência celta. Trata-se de um mulato brasileiro, que imigrou para ser chófer da (nossa) praça. Desta forma.]
Abaixo deixo breves postais que antes coloquei no colectivo “Delito de Opinião” - o qual entretanto mudou de endereço, devido ao encerrramento da plataforma SAPO (como aqui anunciei).
Arruadas
Caracóis
Sento-me na esplanada, aguardo a minha mais querida conviva comensal. Peço a imperial e recomeço a leitura do breve Cela que trouxe. Na mesa ao lado, a quatro braçadas de mim, um casal de quarentões, ela feia de nascença, peluda e veienta também, ele dessa condição adquirida tal como o ventre que o acompanha. Diante deles vigora a travessa dos abomináveis caracóis, aparentando-se intermináveis. Ela sorve-os, sôfrega na sua irremediável feiura. Ele chupa-os, nisso tonitruante. Tento fulminá-lo com olhares, mas ele a isso está blindado pela gula.
Afinal acabam-se-lhes os petiscos. Grunhem, guturais, e chega-lhes à mesa uma dose de feijoada, o odor da molhanga escorre, eles deglutem, apaixonados.
Eu desespero..
Coitados dos Pangolins
O António Cabrita acaba de publicar uma ficção, romance-sátira sobre Moçambique, assim o disse (e fez). Lá compareci no “lançamento”, ao abraço devido. Depois li. Entretanto um amigo moçambicano pediu-me para lhe enviar um exemplar, comprei-o. Nas delongas para encontrar um portador para Maputo acabei por o dar a alguém interessado.
Agora a Lisboa chegou alguém disponível para lhe levar o livro. Acorri à livraria vizinha, de “cadeia” renomada. Aporto ao balcão para perguntar ao livreiro se o tem disponível. Mas dá-me uma “branca”, esqueço-me do título… Resta-me perguntar-lhe se “têm um livro de António Cabrita cujo título é qualquer coisa com pangolins“, informação que será suficiente para a pesquisa – o título é “Da Santidade na Perspectiva dos Pangolins”. Pressuroso e simpático o trabalhador (agora dito “colaborador”) investiga o assunto nos meandros da rede digital da sua afamada – e secular – “cadeia” empregadora.
E lamenta-se, “não temos nada desse autor” – o Cabrita tem vinte e tal livros publicados, já agora. E culmina, em cúmulo de solicitude, “é um cozinheiro?“… Agradeço-lhe, deixo-lhe o “boa noite” devido. E saio gemendo, até aflito: “coitados dos pangolins…“
A Vida é Feita de Pequenos Nadas…
Aqui anunciei a informal realização de uma feira do livro na barraca do Evaldo, nas cercanias do Centro Comercial dos Olivais. Ali vizinhos e clientes deixam livros de que já desnecessitam e outros os levam. Como disse nesse meu texto, isto é sintomático de uma verdadeira vida de bairro, de espírito de vizinhança, que desnecessita dos órgãos municipais para que possa acontecer. Mas que precisa que eles não a inviabilizem.
Venho agora avisar que mais de um mês depois de a actividade ter começado a banca continua, até maior do que a inicial. Sempre rodando os livros disponíveis. A vida é feita de pequenos nadas…
Os 900 anos de Portugal
(Quase) Todos os mais-velhos têm tendência para resmungarem que no “seu tempo” é que era bom, que as coisas vão para pior, etc… Não há qualquer razão para que eu seja diferente. E explico porque sinto este ambiente degenerado.
Quando eu estava nos vintes preparou-se em Portugal o ciclo comemorativo dos 500 anos dos Descobrimentos. Para dirigir essa tarefa (identitária) o então primeiro-ministro escolheu Vasco da Graça Moura, um grande “Homem de Cultura” (como é habitual dizer) e que soube cumprir com excelência. Depois, o novo primeiro-ministro Guterres substitui-o por António Manuel Hespanha, um grande historiador, que inflectiu um pouco o pendor das acções comemorativas, realizando um mandato magnífico.
Décadas passaram. Aproximando-se o cinquentenário da data fundacional do regime, para dirigir as devidas comemorações o primeiro-ministro Costa convidou Adão e Silva, renomado… publicista socratista. O mandato era longo, os meios disponíveis vastos. Todos podemos opinar sobre o que foi feito.
Entretanto Costa fez ascender esse Adão e Silva a ministro da Cultura. Face aos 500 anos de nascimento de Camões – também momento identitário pois há dois séculos anos que Camões vem sendo dito “poeta nacional” – Adão e Silva… esqueceu-se de nomear a comissão comemorativa, fazendo-o in extremis já sob a pressão da imprensa.
Agora apresta-se o país para celebrar os 900 anos da invenção de Portugal. Para isso dirigir o primeiro-ministro Montenegro escolhe Paulo Portas. Antigo activo jornalista – a minha geração lembra-se como ele nada apoiou a introdução de medicamentos genéricos no país, por exemplo. Antigo irrevogável ministro. Actual ágil comentador televisivo, muito competente docente de relações internacionais e, consta que excelente, intermediário de negócios.
Por estar eu velhote, já nos 62 anos, tudo isto me parece mesmo a tal degenerescência.





